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Uma aposta na incandescência

O filme de arquivo já pode ser considerado um gênero relativamente consolidado na história do cinema brasileiro e mundial. Propor uma segunda ordem de visibilidade para determinadas imagens e sons é uma práxis comum e feita com maestria em obras de diferentes tradições cinematográficas. A título de exemplo, é possível pensar nas “imagens apesar de tudo” de Harun Farocki em Imagens do Mundo e Inscrições da Guerra (1989), no gesto voyeurístico de Lincoln Péricles em Filme dos Outros (Lincoln Péricles, 2015), na retomada das próprias imagens em Já visto, jamais visto (2013) de Andrea Tonacci, nos arquivos domésticos que Amanda Devulsky lança a esfera pública em Vermelho Bruto (2023) e em muitos outros. O universo de possibilidades e de filmes é infinito, assim como suas operações e manipulações. Entretanto, como lidar com um filme de arquivo em que essa “segunda ordem de visibilidade” não é plenamente visível? Ou melhor: e se estivermos diante de uma visibilidade de baixa apreensão e resolução? Não me refiro diretamente à nitidez ou definição do material, mas de uma resolubilidade dispersa, quase inapreensível que aposta em estímulos e sensações.


É nessa aposta que Filme-chama (Gabriela Luiza e Tiago Mata Machado, 2024) se estrutura. Um amontoado de móveis domésticos pegando fogo dá início ao filme. A imagem é monocromática, mas ao invés do convencional preto e branco, vemos a escuridão tomada por um incandescente anil, quase no tom da chama azul do fogão doméstico. Concomitantemente, ouvimos Imaginary Landscape no. 5 de John Cage. Logo de início, há uma aproximação entre a composição fragmentária de Cage e a montagem do filme. Ao passo que a peça musical se vale de uma colcha de retalhos composta por 42 gravações diferentes, que parecem disputar sem sucesso por espaço no campo da inteligibilidade, Filme-chama se lança ainda mais no jogo de sobreposições sonoras e, sobretudo, visuais.


Durante os primeiros dois minutos e meio de filme são adicionados mais samples (amostras) de músicas e sons, como se os fragmentos de Cage ainda fossem insuficientes para lidar com a demasia informacional do mundo pós-moderno. Polícia Covarde de FBC e VHOOR, sirenes, explosões, vidros se quebrando e outros sons, criam uma de poluição sonora, um excesso. Não muito distante disso, as imagens também são compostas na overdose de informações que não informam praticamente nada. Sobreposições, cores vibrantes, cintilâncias, explosões e imagens de arquivo aparentemente desconexas vão e vêm e compõem esse excesso. Imagens de guerras, holofotes, luzes, filmes antigos, homens musculosos, demolições e florestas pegando fogo se sobrepõem na tela. É como estar diante da timeline do TikTok ou dos infindos painéis da Times Square.


Seguido a esse boom de estímulos, imagens e sons de algumas explosões parecem também implodir o ritmo que parecia estar consolidado no filme. A sobreposição das imagens se mantêm, contudo, não somos mais bombardeados por sua cintilância. Estamos diante da fumaça dessa explosão, os efeitos de sua combustão. Todos os arquivos que vemos agora são mediadas por essa névoa que ofusca e cobre a nitidez das imagens. A tela ainda é monocromática, mas diferentemente do primeiro plano, agora os tons são em vermelho ou laranja foscos que contrastam com as sombras negras. Luiza e Machado, neste segundo momento, lançam ao espectador uma dimensão mais contemplativa dos arquivos. O que está em jogo não é uma aposta no flickering, mas sim na luminosidade, nas sombras, silhuetas, texturas e vibrações que a sobreposição pode produzir sensorialmente no espectador. Uma ordem de incandescência das silhuetas e formas.


A dimensão sonora também se modifica. Ao invés de um amontoado de samples, ouvimos sons que parecem ter saído de dentro do abismo. Ainda há alguma justaposição de sons, mas a audibilidade deles é outra em relação ao momento anterior: o canto dramático e distante de uma mulher suplica a reza Pie Jesu (“Piedoso Jesus” em tradução livre) e se complementa a alguns sons utilizados anteriormente. Entretanto, ao invés de brigar entre si, existe uma correspondência entre eles. O gesto é bem similar ao desenho sonoro de A Morte Branca do Feiticeiro Negro (Rodrigo Ribeiro-Andrade, 2020), dadas as devidas particularidades, e funciona como um rito de passagem de um lugar para o outro, um purgatório.


Ao fim, ocorrem outras alterações no estatuto narrativo e estilístico. É como chegarmos ao fim da jornada que passou pelo excesso informacional da vida pós-moderna, no limbo no purgatório e, finalmente, no inferno. Aqui, Filme-chama varia muito pouco em termos estilísticos e parece amalgamar as escolhas formais dos dois momentos anteriores. A predominância do vermelho se esvai, vemos novamente outras cores em meio as sobreposições: roxo, azul, amarelo e verde. A voz também se cessa e, ao invés de uma amálgama desarmônica de sons, ouvimos apenas um instrumento que persiste até o final da projeção. Dá a impressão de que finalmente estamos vendo a chama depois do fogo e da fumaça, apenas a parte incandescente da imagem e suas múltiplas variações cromáticas. Enquanto o fogo é, por excelência, uma reação química de transformação do estado da matéria, a chama a chama não é a matéria em si, mas sim sua luz energia térmica. Nessa metáfora, Filme-chama nos guia a uma série de estímulos que não pertencem a uma ordem material ou concreta, mas sim a um apelo pelos sentidos e pulsões.


É evidente que a aposta na sensorialidade não é um estilo fílmico novo e que pode ser visto de Man Ray a Clara Chroma, mas Filme-chama (2024) parece ir contra uma tendência contemporânea de manipulação de imagens e sons de arquivos, pelo material que ele se utiliza e também por sua resolubilidade dispersa. Nesse sentido, há uma certa dificuldade em incluir o filme de Machado e Luiza num certo gênero de “cinema de arquivo” pois, apesar de se valer de imagens de terceiros para montar sua mise-en-scène, a relação que o filme estabelece diz mais a respeito de vestígios do que de visibilidades.

 

Este texto crítico foi escrito por Renan Eduardo, crítico e pesquisador, para a obra "Filme-chama" (Gabriela Luiza & Tiago Mata Machado, Brasil, 2024), exibido em 23 de fevereiro de 2024, na programação do Prêmio Humberto Mauro.

 

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