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Se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar…

Uma viagem pelo maps nos guia pela Avenida São Francisco, de Januária (MG). Os sons variam entre o que parece ser uma estação de rádio e ruídos da cidade, além do clique insistente do cursor do aplicativo. Entre crianças andando de bicicleta, pedreiros fazendo obras no asfalto e uma composição sonora vibrante (com o piar dos pássaros, pessoas falando e barulhos urbanos), vemos uma cidade viva em contraponto à captura estática do dispositivo do maps. 


Um clique igual aos outros nos leva do mapa para uma foto em preto e branco, no que parece ser a mesma avenida de antes, décadas atrás. Tudo está alagado. Dois homens encaram a câmera – o restante das pessoas estão ocupadas com o evento extraordinário do rio que inundou o asfalto, com a água chegando até o tornozelo. Em outras fotos, os habitantes navegam de canoa pelo ambiente urbano, parecendo estar na água com tranquilidade, como se fosse apenas mais um dia em Januária. O rio parece fazer parte da paisagem. 


Uma voz em off (da diretora) entra em cena, relembrando a história que sua mãe lhe contou – sobre a enchente de 1979, quando o velho chico invadiu as ruas de Januária e outras cidades do interior de Minas. A tragédia, que impactou milhares de vidas, é tratada por Maria Clara como uma outra mirada no cotidiano da cidade, quase como uma lenda contada de geração em geração. A diretora não tira o peso do acontecimento, mas o recupera na voz de uma geração que não viveu o evento diretamente, mas ainda assim foi marcada pelas histórias de seus familiares que recontam o acidente a partir de suas vivências. 


É nesse gesto que o filme passa longe de uma reportagem sobre as enchentes para se tornar uma fabulação sobre um lugar amado – um lugar que, para a narradora, existiu daquela forma alagada somente por meio da oralidade e das imagens que restaram. Nas lembranças de sua mãe e de outros moradores da cidade, entra sua imaginação de infância, que a diretora recupera com mistério e bom humor. Não à toa, ela marca: “Pra quem era adulto, gente já feita, era uma tragédia. Mas pra quem ainda era menino pequeno, era lindo ver a água chegando perto. Não tinha uma criança que não ficava doida pra entrar na água e tomar banho.” Aqui, é a infância – ou a possibilidade de fabulação – que permite uma outra lida com o cotidiano (incluindo seus riscos, delícias e tragédias).


Logo depois, Maria Clara conta sobre um ‘vulto’, uma coisa que rondava a cidade e que, quem viu de frente, não ficou vivo para contar a história. Essa coisa amorfa (que não era bicho, mas era grande) também é uma maneira de transformar a tragédia (muito concreta e material) numa história de terror – que, portanto, teria seus elementos de suspense que chamam a curiosidade e o espanto. O que seria a coisa? Ninguém sabe, mas a diretora afirma que adoraria encontrá-la um dia: 


“Até hoje tem gente que vive com medo de chover muito, da água entrar na cidade e trazer a coisa de volta. Mas eu não. Eu não tenho medo, não. Quando chove, eu fico esperando que o rio venha entrando aqui na rua. Durante a noite toda assim… Pra quando for de manhã, eu acordar, e aí eu poder nadar por todo canto pra ver se eu encontro essa coisa.” 


Novamente, a vontade de entrar em contato com o que seria temível coloca Maria Clara num lugar de exploradora, que quer assumir sua criança interior sem medo de se encantar pelo mundo. O próprio filme se torna, assim, uma espécie de laboratório de suas invenções de infância, projetadas na vida adulta e na vontade de nadar pela cidade de concreto, ultrapassando os limites entre o que é ela, o que é a rua e o que é a água: tudo faz parte de um mesmo universo – e o que varia é a forma da vida.


Depois do primeiro depoimento, o som muda e o registro do filme também. Colagens em movimento são acompanhadas de música e do som da água. Maria Clara, então, passa a contar da memória do que parece ser um sonho – já não mais se apoiando na lembrança de sua mãe, mas partindo de uma projeção própria de sua relação com a cidade. Ela narra sobre estar na beira do rio, quando ele, mais uma vez, inundou a cidade. A água se misturou ao concreto de uma obra em construção e foi transformando tudo em pedra. Ela achou que tinha se tornado concreto também, mas percebeu que estava viva – e quando a água veio novamente, ela seguiu:


“E eu fui nadando junto com a água, que ela não me matava. E na hora que eu virei a curva e cheguei naquela rua, eu vi que eu era peixe e todo mundo tava lá, e era peixe também… ou então caboclo d’água, ou bola de fogo, ou iara… E eu cumprimentei todo mundo normalmente e continuei nadando na cidade e fui embora… nadando entre a rua, a igreja, a praça, as lojas. E cheguei em casa. Fui embora.” 


A narração surreal do filme se torna ainda mais onírica junto das colagens que misturam épocas e registros diversos (com imagens de rio, construções históricas, navios, etc.). Além disso, entram também imagens de arquivo com crianças vivendo em situações de enchente (elas brincam, pulam na água, surfam nas ondas de concreto…). Esses registros parecem amplificar o que Maria Clara traz ao longo do filme: há sempre espaço para a imaginação, porque a vida dá um jeito de continuar. E a inocência das crianças que brincam quando o mundo está acabando é também um respiro em meio ao caos. 


Nessa rua passa um rio traz algo da melancolia e inocência da cantiga infantil: “Se essa rua / Se essa rua fosse minha / Eu mandava / Eu mandava ladrilhar / Com pedrinhas / Com pedrinhas de brilhante / Para o meu / Para o meu amor passar”. A criança canta que, se as coisas fossem como ela queria, ela daria um jeito de encontrar o seu amor – e, ao cantar, ela fabula um mundo só seu, uma rua do seu jeitinho. É como no filme, no qual o barro da enchente se transforma num grande rio inexplorado, cheio de possibilidades de encontro e fuga.

 

Este texto crítico foi escrito por Larissa Muniz, crítica e pesquisadora, para a obra "Nessa Rua Passa um Rio" (Maria Clara Almeida, Brasil, 2024), exibido em 22 de fevereiro de 2024, na programação do Prêmio Humberto Mauro.

 

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