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Por um cinema de interrupções

O ensaio, com sua natureza imprecisa e de difícil definição, talvez tenha como principal característica o traço da investigação, que busca abrir possibilidades de perguntas e relações inesperadas. Milena Szafir resume em algumas linhas o que poderia ser a essência desse “estilo”: 


(...) o componente-chave do filme-ensaio é a instância critica, algo entre o político, o lúdico, o contraditório e o desvio digressivo-transgressivo, ponto de encontro entre documentário-arte-vanguarda, como um processo de pensamento em performatividade por meio de uma experiência pública em debate que se coordena dos ouvidos aos olhos a partir de três polos (pessoal, objetivo e universal). (SZAFIR, 2015, p. 159 – A sobrevivência das imagens)


O filme-ensaio, portanto, tem esse caráter do diálogo que assume o em processo e tenta acionar diferentes elementos e caminhos possíveis – pensando com e a partir das imagens. Szafir discute alguns procedimentos recorrentes da montagem audiovisual que procura uma escritura crítico-reflexiva a partir de uma lida com os arquivos. Temos muitos termos para esses filmes de apropriação, como o foundfootage, o remix, a antropofagia, a videoarte, etc. Ao contrário do “filme de compilação”, que coloca lado a lado diferentes imagens, normalmente de forma homogeneizante, aceitando a imagem de acordo com seu contexto, Szafir discorre sobre a montagem de “apropriação” e “colagem”, que está num terreno mais escorregadio, de disputa, em busca de uma retórica audiovisual (que entende a montagem como uma “linguagem de diálogo”). Ela destaca como esses filmes costumam tirar as imagens de seus contextos originais, apostando na força de seu aspecto imagético, num exercício constante de metalinguagem. 


Neste sentido, entendo Filme-quebrado, de Diego Souza e Alexandre Bueno (2024), como um ensaio de apropriação – uma obra incompleta (no melhor sentido da palavra) que tem sua força em uma estrutura cheia de lacunas e interrupções. O quebrado vem com duplo sentido. Primeiro, com o recorte de cenas diversas, que utiliza a montagem de forma livre, sem apegos restritos ao sentido original das cenas; segundo, o curta aposta num cinema marginal (afastado do centro, mas também rebelde) que se mostra cada vez mais fértil. Assim, o filme-quebrado é um manifesto e uma homenagem: é possível fazer cinema fora do centro de Belo Horizonte; esse cinema está sendo feito e está sendo escrito na história; ele não é ‘menos cinema’ porque é de ‘quebrada’. Pelo contrário, a sua marginalidade é um espaço aberto à força que traz à tona a possibilidade de outros olhares, outras existências, outros caminhos, outras paisagens. 


É nesse sentido que a montagem está o tempo todo movimentando a dicotomia margem x centro. A cena de Bang-bang, de Andrea Tonacci (1971), é acompanhada de um off de Grace Passô em No coração do mundo, de Gabriel Martins (2019), afirmando que aquele lugar não é mais o seu centro – mas que pode haver, ainda, uma outra paragem possível: 


“No coração do mundo… É o próximo lugar, cara… É pra onde a gente quer ir. Melhor, muito melhor. É onde a gente quer pisar. Pra onde vai o desejo da gente. Aqui não é mais meu coração do mundo não. Já foi, acabou, saturou. É isso. Já foi.” 


O choque histórico é imediato – e o sabor do reconhecimento também. É delicioso ouvir Passô dizer, numa Avenida Afonso Pena dos anos 1970, que há a possibilidade de outros rumos – sabendo que o próprio cinema do qual faz parte (como atriz, diretora, roteirista, etc.) já está numa outra etapa da viagem, já é um outro mundo que existe nas imagens. O salto temporal que essa associação faz é também uma atualização do sonho de fazer cinema, dizendo “chegamos até aqui, para onde vamos agora?”. O centro (ou as grandes produções) não é a linha de chegada. 


A montagem também equilibra o peso dos trechos que falam por si com entrevistas de dois diretores dos filmes – Gabriel Martins e André Novais. Nesses momentos, é como se a experimentação de Filme-quebrado fosse fincada na realidade da produção do restante das obras. Não à toa, André entra para falar da vontade de fazer filmes de sua quebrada. Depois, Gabriel fala sobre as características dos bairros periféricos e das pessoas que os compõem – e como isso diz do modo como a política brasileira acontece. 


Esses depoimentos, embora breves, abrem novamente o filme para uma história que está sendo feita no momento da montagem – porque atualiza os registros anteriores (sejam de Tonacci, Humberto Mauro, ou da própria Filmes de Plástico) –, colocando Gabito e André como participações que são, também, históricas na produção brasileira. Eles refletem sobre a própria produção, numa obra que os coloca em pé de igualdade com os diretores “clássicos”. Não é sobre fundar novas iconografias, mas sobre explodir (ou implodir) o centro.  


Quando ouvimos um off de Fantasmas (Novais, 2010) junto de uma cena de Temporada (Novais, 2018), o salto centrado na filmografia do diretor é também um respiro de esperança. O curta de 2010, que perguntava “Que que cê tá olhando aí? Cara, isso é uma câmera? O que você tá filmando aí?”, diante da resposta simples de André “Um negócio meu aqui...”, se transforma na paisagem do longa – já num momento diferente de sua produção. Apesar das dificuldades de se fazer cinema na quebrada, seus filmes continuam. E Filme-quebrado quer guardar isso como parte de um acervo histórico, político e pessoal. 


Na cena final, Gace Passô dirige e ri – com o lettering de Humberto Mauro retornando à tela. Em Temporada, a personagem de Grace ri pela possibilidade de um novo futuro, guiada pelos seus desejos, depois de superar uma fase difícil de sua vida. Em Filme-quebrado, Grace ri da ideia romântica de uma cidade “Cavada entre montanhas, no seu ingênuo deslumbramento de menina, Bello-Horizonte é a Cidade-encantamento, a Cidade-repouso, a Cidade-vergel…”. Ela sabe que essa cidade não existe e dirige rumo ao seu coração do mundo – que é um lugar não nomeado (quem sabe até inalcançável). A graça está na busca por essa margem que nunca para de se movimentar, sabendo que o centro simplesmente não existe – e que a história dá voltas, podendo ser recuperada/apropriada/remixada em oito minutos de montagem.

 

Este texto crítico foi escrito por Larissa Muniz, crítica e pesquisadora, para a obra "Filme Quebrado" (Diego Souza & Alexandre Bueno, Brasil, 2024), exibido em 22 de fevereiro de 2024, na programação do Prêmio Humberto Mauro.

 

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