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Galo Doido

O sentimento que dispara o experimento apresentado em Trap Pesadelo é a insatisfação. A forma que o filme elabora a partir dessa névoa é carregada de deboche e ironia. O curta começa com o próprio diretor em cena. Ele conversa por vídeo-chamada com um avatar produzido por Inteligência Artificial, parte de um programa assistencial do governo brasileiro para jovens cineastas frustrados.


A imagem, gerada por computador, apresenta a conversa ao estilo desktop movie. O artista veste preto desde o moletom até a armação dos óculos, passando pelas paredes atrás de seu torso quase imóvel. Escutamos ele reclamar da vida e confessar estar viciado em fazer filmes para o holograma. Briga de foice no cinema: ainda sofremos da condição colonial diagnosticada por Paulo Emílio Sales Gomes nos anos 1960. As disputas têm jogado o cinema de invenção para a sarjeta do mercado. Aí vem a solidão e o escárnio.


Marco Antonio Pereira é um jovem realizador de Cordisburgo, Minas Gerais, que surgiu recentemente no circuito de festivais com um curta que gerou forte atração no público que o assistiu, intitulado A retirada para um coração bruto (2017). Mas neste novo curta ele fez diferente, ainda que tenha voltado ao flerte com o absurdo e a doideira. Aqui, Pereira performa a si mesmo, mas de maneira venenosa, brincando com o fracasso. 


Com uma caveira que chega pelos correios, o diretor inventa samples para expressar sua fúria com um trap “agressivo”. Juntos os dois se divertem e fazem um som, que dá lugar a um manifesto em torno das condições materiais de existência do cineasta independente. Discutir cinema como trabalho virou lugar comum no “setor”, mas a cena ainda escamoteia conversas que colocam o cinema na sociedade de classes. 

De forma tresloucada, terminamos o curta em meio às galinhas em um quintal de cromatismo terroso. O protagonista toca uma guitarra preta e o galo doido canta. A montagem faz as imagens dançarem entre um contra-plongée do diretor surrando o instrumento e planos das aves cocoricando. No meio do cocoricó trevoso o filme acaba. 


Uma das discussões mais instigantes do campo do cinema atual é a diversão. Fazem falta filmes para se divertir. Aqui, se pensa em meio a diversão. Em outra crítica, escrevi que o cinema brasileiro, sobretudo a parcela mais autoral e independente da cena, sofre de um “complexo de épico”. Muita seriedade e pouca curtição. Os filmes mais expressivos de Marco Antonio Pereira bagunçam esse complexo.

 

Este texto crítico foi escrito por João Paulo Campos, crítico e pesquisador, para a obra "Trap Pesadelo, o Manifesto" (Marco Antônio Pereira, Brasil, 2024), exibido em 24 de fevereiro de 2024, na programação do Prêmio Humberto Mauro.

 

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