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Comentários sobre "Breve História do Planeta Verde"

Três amigos dão entrada num hospital. Uma das amigas está passando mal. Na triagem, a médica analisa a enferma e avalia: 'Há algo de errado'. Um dos amigos responde: 'Todos somos um pouco errados'. A médica insiste: 'É outra coisa…'. A outra amiga então diz: 'Não se assuste, vamos te mostrar algo realmente estranho'.


Criatura. Estranha. Extraterrestre. Há várias maneiras de dar nomes aos personagens de "Breve História do Planeta Verde", produção argentina e brasileira, dirigida por Santiago Loza, de 2019. Nenhuma delas, porém, parece feri-los. Eles já estão anestesiados demais.


Quando Tania (Romina Escobar) é informada sobre a morte de sua avó, ela se reúne com os dois melhores amigos, Daniela e Pedro (Paula Grinszpan e Luis Soda), para viajarem até o local do enterro, quando descobrem que a falecida passou os últimos anos de sua vida na companhia de um amigo excepcional: um pequeno alienígena. O último pedido da avó, era que Tania levasse a criatura de volta ao local onde foi encontrada.


Tania é uma mulher trans. Daniela é uma mulher cis e hétero. Pedro é um homem cis e bi. E eles carregam numa mala cheia de gelo um pequeno extraterrestre roxo. Mas não é a criatura de outro planeta que chama atenção por onde passa. É o próprio trio de amigos.


'Só assim ela poderá descansar em paz. Esse é o seu legado', informa a senhora que morava com a avó de Tania sobre a sua missão. Contudo, o filme não é sobre levar a criatura roxa de volta para o local de onde veio, mas a busca de cada um deles sobre seus próprios caminhos. Talvez o legado de Tania seja justamente descansar e encontrar a própria paz.


Ao serem apresentados ao pequeno alienígena na casa da avó, o extraterrestre do filme não assusta os três como o "ET" do filme de Spielberg (do qual o filme faz evidente referência) e, por isso, não se trata de uma versão LGBTQIAPN+ do clássico de fantasia dos anos 80. Aliás, a criatura roxa parece não surpreender nenhum dos personagens que encontra ao longo do filme. Os extraterrestres aqui são justamente os três amigos humanos, que foram constantemente desumanizados ao longo de suas vidas, sobretudo Tania.


Há algo tão genuíno e puro na relação do extraterrestre com a avó de Tania, como vemos nos breves planos fotográficos em que somos apresentados a essa dinâmica de amizade, que parece contrapor à violência que Tania viveu em suas próprias relações afetivas ao longo da vida. Seja a do seu ex companheiro, que a persegue ao longo do filme, seja pela discriminação de seu corpo travesti, como sugerido algumas vezes. Nesse sentido, o tema do filme também é a amizade e o amor e ao mesmo tempo o atravessamento dessas relações.


A direção de Santiago Loza aposta em planos mais longos, contemplativos e escuros. Os personagens parecem estar imersos em um luto constante, desiludidos. Não apenas o trio, mas as pessoas que vão encontrando pelo caminho. Cada um dos três amigos vai lidar com suas próprias questões do passado ao retornarem à pequena cidade argentina, lembrando de situações de transfobia, homofobia e indiferença.


As características do realismo fantástico, tão presentes no cinema latino americano, também estão aqui, como em uma das cenas finais, onde o trio se vê diante de uma pequena multidão de pessoas erguendo tochas em sua direção, para imediatamente depois de entoarem uma espécie de oração, desaparecerem. Ou ainda nas figuras encapuzadas que surgem aqui e ali guiando o caminho dos amigos para o local onde devem seguir. E na própria figura de Tania, que, como sugere o plano que dá início ao filme, é a alienígena em seu próprio planeta.


Logo no início do filme, quando somos apresentados à Tania, que parece dividir o apartamento com uma amiga, esta analisa atentamente um jogo de Tarot de Marselha sobre a mesa, avaliando cada uma das cartas com atenção. O longa de Santiago Loza, parece exigir do espectador um olhar atento aos arquétipos de cada personagem, nos abrindo para outras leituras e realidades. É um exercício de interpretação e empatia.


"Breve História do Planeta Verde" é o próprio retrato das constantes sensações de estranhamento sentidas pela comunidade LGBTQIAPN+ ao longo de suas vidas. É um filme sobre amor, amizade e sobre o desejo de pertencer a um lugar que podemos chamar de casa ou planeta.


 

Este texto crítico foi escrito por Michel Ramos, cineasta e roteirista, para a obra "Breve História do Planeta Verde" (Breve Historia del Planeta Verde, Santiago Loza, Argentina/Brasil, 2019), na faixa de programação Cinema Mineiro em Cartaz, no dia 12/07/2023, como parte da mostra "De Volta para o Futuro".

 

Sobre o autor

Michel Ramos é cineasta, roteirista e sócio da produtora Filme com Fome, onde realizou os curtas-metragens "Eu Estou Vivo" e "Temporal", selecionado para diversas mostras e festivais. Bacharel em Cinema e Audiovisual pelo Centro Universitário UNA, onde também ministrou o curso de extensão Cinema LGBTQIA+: representações e protagonismo, em Junho de 2021.



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