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Um Divã em Nova York, de Chantal Akerman

por Carla Maia


Produção em grande escala, com estrelas como William Hurt e Juliette Binoche no elenco e dispendiosas filmagens em estúdio (o filme foi, em parte, rodado nos estúdios Babelsberg, um dos maiores complexos cinematográficos de toda a Europa.), Um divã em Nova Iorque é considerado por muitos críticos como um corpo estranho no conjunto de filmes da cineasta Chantal Akerman. Conhecida e celebrada por seus filmes experimentais, de estrutura rigorosa e narrativa rarefeita, a própria diretora relata desconfortos e dificuldades no processo de criação da obra, sobretudo por ter de se submeter a lógicas de produção e trabalho no set bem distintas das que estava habituada em seus trabalhos independentes.


De fato, a história de amor entre o psicanalista novaiorquino Henry Harriston (Willian Hurt) e a bailarina parisiense Béatrice Saulnier (Juliette Binoche), iniciada a partir de uma troca de apartamentos proposta por Harriston num anúncio do Herald Tribune, foge do tom e do mote da maioria dos filmes de Akerman. Primeiro, poderíamos pensar, pelo final feliz – raridade na cinematografia da diretora. Ou melhor, por simplesmente apresentar um final conclusivo, aos moldes da estrutura narrativa clássica, com introdução (a proposta de troca de apartamentos por Harriston), conflito (a descoberta, por Harrison, de que sua hóspede estava atendendo seus pacientes e os desafios em se passar por analista, por parte de Saulnier) e resolução do conflito (o reencontro do casal em Paris, ao final).


Apesar de se submeter, em certa medida, à lógica hollywoodiana de narrativa e produção, Akerman não cede totalmente e nos apresenta uma história de ritmo pouco usual, marcada por algumas reiterações, gags discretas e, sobretudo, pela ausência do que poderíamos chamar de um clímax. O resultado é uma narrativa a meio passo de poder ser considerada exemplar do gênero comédia romântica e a léguas de um cinema propriamente experimental. No entanto, resistem nele traços de autoria akermaniana, por exemplo, o retorno à temática do deslocamento (manifesta aqui na troca de apartamentos, explorada em outros filmes da diretora como Le déménagement, Demain on déménage, para citar apenas dois exemplos) e a relação com a mãe (a psicanálise como principal pretexto para explorar essa relação, tão central na obra de Akerman). Talvez o filme não esteja tão distante da filmografia da artista, afinal.


Para além das recorrências temáticas, vale uma consideração final que novamente aponta esse filme como um caso atípico na obra de Akerman. Apesar de não ser a única, essa é das raras obras da diretora com protagonismo masculino, em meio a muitos trabalhos com mulheres no centro da narrativa. Esse protagonismo se expressa não apenas pela centralidade da figura de Harriston, de cuja ação e decisão resultam o início e o desenlace da história, mas pelo significativo fato de que todos os clientes atendidos no divã de Nova Iorque serem homens. Inverte-se aqui a cena psicanalítica original, com Freud a escutar suas histéricas no divã, em favor de novas posições, em que a mulher se põe a escuta das neuroses masculinas. E daí temos mais uma diferenciação: se o homem de La captive, com seu controle exagerado e voyeurismo invasivo, ou mesmo o filho de Jeanne Dielman..., alheio à mãe embora totalmente acomodado em ser por ela servido, permitem uma leitura crítica, distanciada e antipatizante do universo masculino, os homens apresentados em Um divã em Nova Iorque são acolhidos no divã de Béatrice com amorosidade e empatia. Estão frágeis e merecem consideração e cuidado. Uma pista para esse tratamento às figuras masculinas pode ser encontrada no site da Fundação Chantal Akerman, no qual lemos, como comentário ao filme, uma breve citação da diretora: “a morte de meu pai”.


As enigmáticas aspas não são conclusivas, mas ao menos permitem levantar a hipótese de que esse filme seria, no conjunto de toda uma obra organizada ao redor e em função da relação com a mãe, um parêntesis para elaborar e entrar em relação com a figura paterna, por ocasião de sua despedida.


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