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UM DIA DE CÃO: Os olhos perdidos de Pacino, sob as lentes precisas de Lumet

Já é célebre a anedota de que que “Halloween” (1978) foi gravado na primavera e, para que as ruas da cidade tivessem a aparência outonal que a premissa exigia, a equipe precisou espalhar folhas ao longo de todos os cenários. A ficção, afinal, ora vive de realizar a fantasia, ora de fantasiar a realidade. Como então um filme gravado durante o outono do Hemisfério Norte poderia mostrar os personagens cobertos de suor e sucumbindo ao calor excruciante? Sidney Lumet responde a esta pergunta em “Um Dia de Cão” (1975), em parte seguindo o caminho mais óbvio e usando água para materializar o calor na superfície dos corpos. Mas há muito mais.


A exemplo de sua obra-prima, “12 Homens e Uma Sentença” (1957), aqui acompanhamos uma situação de tensão social cuja medida é dada pelo calor. Quanto mais o ânimos se exaltam e o desfecho se aproxima, mais os personagens estão afogados em seu próprio suor e envolvidos pela alta temperatura das circunstâncias, sempre guiados por um roteiro e por uma direção que fogem da obviedade. “Um Dia de Cão” é, essencialmente, um “anti-filme de ação”, muito em virtude da interpretação sensível de Al Pacino e da condução segura de Lumet.


Na trama, acompanhamos o desenrolar de um assalto a banco em Nova York, história por sua vez inspirada em um caso real acontecido três anos antes do lançamento do filme. Nos planos de Sonny Wortzik (Al Pacino) e Sal Naturile (John Cazale), os ladrões, o roubo seria rápido, envolvendo apenas a entrada no banco, neutralização dos presentes e recolhimento do dinheiro. Entretanto, por uma série de acontecimentos não planejados, todos os funcionários do local (7 mulheres e 2 homens) passam a ser mantidos reféns, e a agência é cercada por policiais, jornalistas e pessoas curiosas atraídas pela situação.


Lumet já inicia o filme de um modo muito interessante. Ao invés de sermos imediatamente colocados dentro da ação, o diretor abre o longa-metragem com um zoom-out lento mostrando a Baía de Nova York, para logo depois mergulhar o espectador na dinâmica da cidade, onde tudo parece correr na mais absoluta normalidade urbana e capitalista, e somente então chegamos, enfim, ao banco. Do geral para o particular, quase como um aceno para o cinema clássico hollywoodiano. Há um ar de realismo e presságio neste início que serve muito bem à narrativa, na medida em que estabelece um quadro de aparente calmaria ‒ que logo será quebrada ‒, mas também de instável contradição. Em uma das  cidades mais ricas do mundo convivem pessoas que agradavelmente jogam tênis ao entardecer e passam o tempo em clubes, enquanto outras dormem nas calçadas ou são relegadas a empregos precarizados.


A direção do já veterano cineasta (na época com mais de 20 filmes para cinema no currículo) também é notável pelo modo como a câmera interage com o elenco. Seja com o equipamento na mão, seguindo os rápidos movimentos dos personagens, ou com a câmera elegantemente se aproximando dos rostos dos atores, o que talvez seja o traço de cinematografia mais marcante neste filme de Lumet. “Um Dia de Cão”, na realidade, é um filme sobre faces, olhares e dilemas humanos, e não um filme de ação, como a premissa poderia levar a crer. Tanto o roteiro de Frank Pierson quanto a direção de Sidney Lumet se recusam a transformar a trama em um festival de tiros, sangue e violência.


Exemplo disso é o próprio personagem de Al Pacino. Sonny é uma espécie de meio-termo entre Tony Montana, de “Scarface” (1983) e o Michael Corleone do primeiro “O Poderoso Chefão” (1972). A imprudência de um caminha ao lado da imaturidade do outro, mas, no filme de Lumet, Pacino revela outra de suas facetas: a vulnerabilidade. É no olhar perdido, sempre arregalado e por vezes doce, na hesitação dos lábios trêmulos e na voz aguda de Sonny que o filme nos apresenta um personagem complexo, tão irresponsável quanto bem-intencionado, ao mesmo tempo impulsivo e sensível.


Mas Pacino não está sozinho nesta construção de personagem exemplar. Chris Sarandon, no papel de Leon Shermer, também demonstra uma habilidade cênica formidável como o interesse amoroso e pivô do roubo. Descobrimos, a certa altura do filme, que o dinheiro obtido no assalto seria usado para pagar a cirurgia de redesignação de Leon, uma mulher transgênero, e é impressionante como nem o filme e menos ainda os atores representam os personagens LGBT de maneira estereotipada ou exploratória. Sarandon imprime tanta verdade e humanidade em suas palavras que seu olhar caótico, gestos leves e rosto cansado, embora contidos, causam enorme impacto nas poucas cenas em que Leon aparece, o que rendeu ao intérprete uma merecida indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 1976.


Entre outras indicações aos Prêmios da Academia (incluindo Lumet, Pacino e o roteirista Frank Pierson, que ganhou), merece destaque também a montadora, Dede Allen  ‒ de filmes como “Bonnie e Clyde” e “Clube dos Cinco”, e colaboradora frequente de Lumet ‒, cujo trabalho é o responsável por ditar o excelente ritmo da narrativa. Embora sejam mais de duas horas de muitos diálogos, Allen intercala as negociações entre assaltantes e polícia com pequenos momentos de silêncio ou diálogos banais de personagens secundários com os assaltantes, de modo que o filme nunca se torna cansativo ou repetitivo. Já nos momentos em que a ação exige uma montagem mais dinâmica, vemos demonstrações mais ostensivas da habilidade da editora, como quando Sonny dispara um tiro ao descobrir um policial entrando no banco, e o que se segue é uma miscelânea de planos muito rápidos que quase piscam na tela, mostrando as reações de cada núcleo de personagens ao rompante e injetando energia e urgência à narrativa.


“Um Dia de Cão” transforma uma história trágica em um drama humano denso, que escapa dos elementos formulaicos do subgênero de filmes de assalto. Quando Sonny conversa com sua mãe (interpretada por Judith Malina), com Angie, sua esposa e mãe de seus dois filhos (Susan Peretz) ou com Leon, é como se estivéssemos assistindo a uma das profundas cenas de diálogos de um filme de Bergman. Já no final, com o olhar desolado de Pacino, vemos a idealização de felicidade ruir para aquele homem, ex-combatente do Vietnã e uma pessoa LGBT, sem lugar na América dos anos 1970. Ele parece saber e sentir, assim como nós, os espectadores, que o american way of life irá continuar sem ele ao amanhecer, com seus tenistas burgueses e as ruas abarrotadas de pedintes.

 

Este ensaio foi escrito por Lucas Henrique Gomes de Oliveira como parte da mostra LUMET: Os Desafios Humanos


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