O sonho e Frank Capra

por Paulo Martins Filho


Talvez não houvesse realmente uma América,

talvez fosse apenas Frank Capra.

(John Cassavetes)


Frank Capra talvez seja, na história do cinema, o maior retratista do tão almejado (e falado) american dream. Muitos dos seus grandes filmes orbitam em torno dessa questão, sendo o próprio Capra um imigrante italiano que foi para o país acompanhando seus pais com apenas cinco anos de idade. Isso o colocou em um lugar diferente de outros estrangeiros que fizeram sucesso como diretores em Hollywood, porque por mais que fosse de outro país, Capra sabe verdadeiramente o que é buscar esse sonho de uma vida melhor numa terra que teoricamente seria a "terra das oportunidades". Ao contrário de Fritz Lang e Douglas Sirk, Capra chegou no país ainda criança e foi criado como um verdadeiro estadunidense. Passou a trabalhar em cinema meio do nada, como era comum na época, tendo em vista que era algo tão recente e o mercado de trabalho ainda estava se formando. Porém, Capra logo virou um diretor sinônimo de êxito comercial, sendo considerado um dos maiores diretores de Hollywood ao longo dos anos 30. A questão aqui é que Capra é um exemplo de alguém que, de certa maneira, alcançou o sonho americano. Contudo, o diretor não só alcançou, como tornou esse sonho um dos elementos basilares do seu cinema.


Basta pensarmos em alguns de seus filmes e em seus protagonistas: em A Felicidade Não Se Compra, George Bailey abre mão do sonho por conta de um altruísmo absurdo; em O Galante Mr. Deeds, Longfellow Deeds ascende socialmente e passa a habitar uma metrópole cosmopolita; em A Mulher faz o Homem, Jefferson Smith, chefe dos escoteiros, é eleito senador para servir de marionete para os capitalistas do seu estado-natal. Todos esses filmes giram em torno dos problemas existentes na busca por esse tal sonho americano… Que, aliás, é um sonho absolutamente relativo, porque cada indivíduo possui sua própria subjetividade e suas próprias vontades. O que acaba por conectar os protagonistas desses três filmes citados (dois deles interpretados por James Stewart, um deles por Gary Cooper) é uma espécie de ethos em comum. Tanto Bailey quanto Deeds ou Smith possuem, em seu núcleo, uma certa ingenuidade e bondade que beiram o infantil. Pueris, esses protagonistas se encontram no meio do turbilhão capitalista e muitas vezes se encontram completamente impotentes, até finalmente encontrarem saídas para esses problemas. Essas saídas são achadas a partir de uma afirmação desse ethos infantil, ingênuo: eles são o que são, não importa que o mundo diga-lhes para serem diferentes. O que acontece em Adorável Vagabundo é que a composição desse protagonista capriano parece ser o próprio tema do filme, além do fato da personagem interpretada por Gary Cooper não compartilhar das mesmas características desses outros protagonistas, colocando-se em um lugar outro.


Adorável Vagabundo trata da história de uma jornalista, interpretado por Barbara Stanwyck, que, ao ser demitida, tenta mudar a situação, ao inventar uma história sobre um homem chamado John Doe que envia uma carta para o jornal dizendo que irá se suicidar na véspera de Natal para protestar contra os males da sociedade. Esse homem claramente não existe. Mas o editor do jornal acata a ideia da jornalista de encontrar um homem para ser o tal do John Doe, e no meio de um grupo de moradores de rua, o encontram. Esse homem é o Gary Cooper, vejam só. Daí para frente, o John Doe passa a ter mais notoriedade, inclusive fazendo discursos no rádio sobre a condição do homem médio americano e dos milhares de john does espalhados pelo território. Fala sobre como a alteridade deve ser praticada cotidianamente. O que acontece é que o John Doe, criatura da jornalista de Stanwyck, vira a face de um movimento social que se espalha por todo o território dos Estados Unidos. Vira a imagem da esperança, do sonho americano. E é muito curioso como a personagem de Gary Cooper possui uma passividade latente o filme todo: por exemplo, quem compõe os seus discursos é a própria Barbara Stanwyck, utilizando os cadernos de seu falecido pai.


Capra parece, em Adorável Vagabundo, estar fazendo um comentário sobre o seu próprio gesto criativo, sobre o seu próprio cinema e a criação daqueles outros protagonistas que exalam bondade. É um filme mais soturno, obscuro e misterioso que todos os outros filmes de Frank Capra porque é um filme absolutamente consciente de seu próprio mecanismo de composição. O tema do filme é a criação de uma ficção, o desenvolvimento do retrato de um rosto que não existe, algo que Capra fez ao longo de toda a sua carreira cinematográfica. Esse rosto é o de Gary Cooper, mas também é o de James Stewart, é o meu, o seu e o de Jesus Cristo. Por isso a personagem do John Doe (em tradução, literalmente Zé Ninguém) é rasa, sem profundidade alguma, justamente porque ele pode ser muitos e nenhum ao mesmo tempo. O paralelo entre a criação artística do próprio Capra e a criação ficcional da jornalista de Stanwyck é evidente. No limite, estão fazendo a mesma coisa, que é a invenção de um ideal a ser alcançado (nada muito diferente da própria noção de american dream). No momento logo no início do filme, em que a jornalista está compenetrada inventando a sua ficção, as luzes ao seu redor apagam e vemos apenas os olhos iluminados de Stanwyck indo de um lado para o outro no papel, numa espécie de excitação criativa. Adorável Vagabundo acaba por ser um filme essencialmente sobre o artifício.


O que é mais estranho é como esse filme se coloca na obra de Capra, num lugar totalmente paradoxal: ao mesmo tempo, é a reafirmação de um eixo temático dos outros filmes do diretor, mas também é a sua própria negação, justamente ao expor em sua forma, explicitamente, todas as nuances e contradições do gesto criativo.