Morte Branca: A melancolia de uma modernidade que o vento levou

por Eulàlia Jordà-Poblet


Morte Branca, é um curta que se inicia com uma longa tomada arquitetônica sobre um edifício enorme e de linhas monótonas e repetitivas. O tempo usado para esse fim, fator limitador para um pequeno filme, demonstra como é importante para o idealizador mostrá-lo bem. Ele irá antecipar o tom que emoldurará em toda a filmagem a frieza urbana que conduzirá à temática da solidão humana, tema central.


A sequência das máquinas chiando em um incômodo frenesi infernal corroborará para nos ambientar didaticamente na direção dessa solidão. Sabemos que na época era frequente acreditar-se no lugar comum de que a máquina iria tomar o lugar do homem, o que ocorreu posteriormente, mas apenas em termos. A cena do personagem no trabalho mostra-nos um mundo em que o trabalho apesar de seu anonimato, ainda tinha seu lugar.


O que não se sabia na época é que o homem se tornaria tão supérfluo como se tornou. Na época da filmagem, acreditava-se que uma pessoa, por exemplo, poderia retornar ao mercado de trabalho se fosse resgatada por mãos bondosas, o que, em suma se traduzia em uma esperança inerente à crença de que soluções existiriam, apenas seria uma questão de se encontrar os caminhos corretos ou a fórmula política ideal. Então havia uma melancolia, sim, mas mergulhada em um caldo esperançoso mesmo que ilusório.


Hoje o trabalho sofre mutações tão intensas que quem caiu do trem-bala da modernidade dificilmente subirá novamente no trem e a esperança é sentimento desconhecido pela maioria.


Portanto, como diria Zygmunt Bauman, trata-se de um filme que fala, mais especificamente, da modernidade sólida. A líquida, a que vivemos nós, é muito mais cruel e avançada. Também é diferente. O filme trata de um momento em que se acreditava que o pior já havia chegado. Ledo engano, ainda havia resíduos de felicidade e não sabíamos. Nosso problema atual não é mais a rotina, mas sim a perda para sempre dela. O filme tratará de quando acreditávamos que a rotina viveria sempre entre nós, o que, cabalmente, não aconteceu.


Como assinaria embaixo Foucalt, a modernidade demonstrada aqui, tem um cenário cuja principal característica são os ambientes definidos e binários. Local de trabalho, horário de lazer. Horário de chegar, horário de sair. Horário de chegar em casa, horário de bater perna. Horário de beber álcool, horário para esquecer. Horário para lembrar, horário para tentar um amor.


Não poderia faltar o espírito da época com o fatal Che Guevara com seu jeito mártir meio Cristo das Américas e do outro Marylin Monroe, mulher-objeto, como se dizia na época . Foucalt apontaria, cada coisa em sua caixinha : há a repartição como há o hospital, como há a prisão, como há a escola: tudo bem demarcado. Assim também definiriam-se os mundos mentais. Quem está com Che é bonzinho, quem quer tirar casquinha de Marylin, é mauzinho. Quanta inocência!


É também esse espírito da época que conduz Morte Branca entre loirinhas de mini-saia e inferninhos com rapazes de corte de cabelo estilo Beatles, o que é pincelado cuidadosamente por José Américo Ribeiro, cineasta que resolveu com maestria sua vida pessoal encontrando um emprego garantido da modernidade sólida da U.F.M.G , na escola de artes, uma raridade entre seus pares. Teve a felicidade de trabalhar tranquilo em seu mais-que-hobby, uma vez que se percebe que o levava com muita seriedade para além de uma mera brincadeira ou distração.


Nosso personagem principal -digo assim porque José Américo divide conosco seu voyeurismo desde a primeira cena permitindo-nos coparticipar de seu sofrimento- é uma figura patética no que a palavra têm de mais etimológica , páthos e patologia, e cuja tradução devidamente banalizada poderia estar contida nos tempos de hoje na palavra sofrência cujos ritmos - ao contrário das belíssimas músicas escolhidas por José para imprimir emoções seja de euforia seja de melancolia em substituição à ausência de palavras de seu cinema mudo - cairiam tombados ladeira abaixo nas músicas atuais de Marília Mendonça.


O personagem, cá entre nós, procura ativamente o sofrimento porque ama estar vitimado, morrendo em vida de forma branca, sem maiores alardes, e mais ainda por ter uma personalidade difícil que o impede de viver a alegria espontânea que a maioria dos jovens possuem, por não se saber soltar sem preocupações transcendentais.


Tudo nele é racionalizado e convertido em fator político, busca de soluções sociais e psicológicas. Todos nele o percebem como pedante, chato, dissonante. Os homens não o querem perto, com seu jeito de perdedor. As mulheres não o querem por sua vez porque percebem nele um mau partido, um mau amante ...e estão certas. Enquanto isso a vida mais preciosa, objetiva, pulsante, natural, se perde.

Na verdade, ele segue La Fontaine por não saber conseguir alcançar as uvas maduras que quer, por observar as vitrines mas não se saber vestir, por apaixonar-se pela loirinha mas não saber dançar, por viver histericamente no pêndulo do ser e do não-ser.


Calvo, desengonçado, embalado pela dura figura marxista que não queria perder la ternura mas que segurava seu charuto avisando subjetivamente aos homens e mulheres que estava segurando seu falo imenso e marcando seu território como todo macho faz e pela contradição do chamado das mulheres nas ruas, nos bares, nas cafeterias, mulheres que zombam dele por ser ele um outsider.


Triste fim do nosso personagem, quando termina no colo de uma mulher de plástico, abraçado a ela e, vai aqui um comentário irônico, do jeito mais puritano possível. Aqui já não se sabe se é o personagem ou o próprio artista que possui uma certa dificuldade de passar erotismo à cena em um abraço que quase não toca o outro corpo ainda que falso.


José Américo mereceria muito mais do que apenas o prêmio de Menção Honrosa que obteve por esse filme que é magistral em sua intenção e discrição. Enxuto como ele só, mostra o pobre trabalhador ainda em experiência comunal – pelo menos entre seres vivos como ele- maquinal em sua escrita mecânica, sem graça mas que consegue nos tocar sensivelmente, de primeira.


O pobre coitado, vivesse hoje , escreveria em homeoffice, mais ilhado e com menos graça ainda. Era um felizardo ele. Se é um solitário em suas idéias , hoje provavelmente não faria nem idéia de que existem idéias e entraria completamente vazio, no planeta da idéia alguma.


O certo, mais que certo, é que o personagem sofre e gosta de sofrer. Se não sofrer, irá procurar como e mais para sofrer, gozando com isso. Mais uma vez friso aqui, essa busca ativa do sofrer era um estilo de época. Isso caiu por terra. Hoje sofre-se desde que se nasce, sem se saber. Perdidos todos os parâmetros, sofre-se mal, sofre-se em uma sensação de para-sempre com uma obrigatoriedade de aparência feliz sob a visão nem sempre complacente dos outros, tão sofredores quanto.

 

Eulália Jordà é médica, poeta, ambientalista e livre-pensadora, incursionando com frequência pelas artes plásticas (pintura), música (MPB e jazz), dança (moderna, afro e gafieira na Elite), literatura e cinema (crítica). Como ambientalista, empenha-se na defesa dos direitos dos animais. Humanista, é discípula de Hannah Arendt e Zygmunt Bauman. Atualmente, colabora na revista virtual Vozes, Textos e Contextos, onde é também entrevistadora ocasional de personalidades artísticas, como o pianista Evan Megaro.


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