Ironia, velocidade, absurdo: Hawks e a screwball comedy

por Thiago Stivaletti


Apenas dois anos depois de dirigir um dos marcos do gênero filme de gângster – Scarface – A Vergonha de uma Nação (Scarface, 1932) –, Howard Hawks foi um dos fundadores de um gênero que marcou os anos 1930: a screwball comedy, precursora da comédia romântica.


Eram os anos da Grande Depressão, e o público americano, desiludido e sem emprego, precisava mais do que nunca rir. Ao mesmo tempo, a mulher começava a alcançar um espaço maior na sociedade. Nas screwball comedies, homens e mulheres travavam uma intensa disputa, muitas vezes em diferentes posições sociais, turbinados por diálogos cuja velocidade nunca mais se repetiu no cinema americano.


Nenhum outro gênero captou com tanto espírito esse novo momento da sociedade capitalista, pós-industrial, em que o homem teve o seu papel de provedor questionado pela mais violenta recessão da história americana e a mulher vivia seus primeiros anos de experiência com o voto – o sufrágio feminino havia sido aprovado pelo Senado americano em 1919.


Naquele mesmo ano de 1934, Hollywood consolidava a implementação de seu Código de Produção, ou Código Hays, uma espécie de censura prévia contra conteúdos “pesados”, com a exigência de um certificado de aprovação aos filmes antes de serem lançados. Como é tradição, Hollywood sempre se preocupou mais com o conteúdo sexual dos filmes do que com as cenas de violência. Não por acaso, as screwball comedies, na definição do crítico Andrew Sarris, notabilizaram-se como “comédias sexuais sem o sexo”[1]. Toda a verve sexual do gênero passa pelos diálogos, raramente pela imagem.


Em 1934, Howard Hawks dirigia Suprema Conquista (Twentieth Century, 1934), verdadeiro duelo de egos no palco que prenuncia um dos grandes temas hawksianos: a vontade de representação como parte fundamental da vida. Já um grande astro na época, John Barrymore, vive Oscar Jaffe, um grande empresário e diretor de teatro que transforma uma completa desconhecida, Mildred Plotka (Carole Lombard), em Lily Garland, uma diva dos palcos. Cada diálogo é um movimento de esgrima em direção ao outro, Oscar provando o seu poder sobre Lily a cada ordem dada no ensaio da peça.


Ao longo do filme, porém, a balança de poder oscila. Lily torna-se uma grande estrela para além dos domínios de Oscar, e este fica à beira da falência; sua última cartada é convencer Lily a montar com ele um grande espetáculo em que ela viverá Salomé. Oscar e Lily são “farinha do mesmo saco”, e impregnam cada diálogo de uma hiper-dramaticidade típica de quem só enxerga a vida como drama.


Hawks joga sobre eles o olhar da comédia e, além da guerra dos sexos, antecipa timidamente, em algumas poucas cenas, outro pilar da screwball comedy: o humor físico dos atores, na linha de “O Gordo e o Magro”, como na cena em que o amigo de Oscar faz de tudo para impedi-lo de sair do vagão para contratar atores amadores para o seu espetáculo.


Olhando em retrospecto, Suprema Conquista não levou o mesmo mérito pela fundação do gênero quanto Aconteceu Naquela Noite, de Frank Capra, no qual Claudette Colbert é uma rica socialite que se envolve sem querer com o repórter pobretão vivido por Clark Gable. Aconteceu Naquela Noite (It Happened One Night, 1934) antecipava com mais ênfase do que Suprema Conquista outro dos motores da screwball: a diferença social entre os personagens (o homem pobre, a menina rica), o que dava ainda mais graça ao conflito. O filme de Capra foi tamanho sucesso de público e crítica que se tornou o primeiro filme da história do Oscar a ganhar os “big five” – as estatuetas de melhor filme, diretor, ator, atriz e roteiro. Foi a consagração da Academia ao novo gênero popular em Hollywood, mas sem querer contribuiu para eclipsar os méritos do filme de Hawks.


O bebê-leopardo

O contraste social vai aparecer com toda a clareza na próxima screwball de Hawks. Em Levada da Breca (Bringing Up Baby, 1938), o diretor pega duas estrelas em ascensão na época (o charmoso Cary Grant e a glamurosa Katherine Hepburn) e os coloca em cena para exercitar um inédito humor físico em suas carreiras ao lado de um leopardo.


David (Grant) é um paleontólogo que sonha em conseguir de uma ricaça atrapalhada, Susan Vance (Hepburn), US$ 1 milhão em doação para o seu museu. Uma urgência é instaurada: David está de casamento marcado com sua assistente para dali a algumas horas. Mas, ao contrário da fórmula do amor “imprevisível” entre figuras improváveis, o interesse de Susan por David é escancarado. Ele ainda não sabe que a ama, mas o roteiro não faz mistério. “O instinto amoroso no homem muitas vezes se revela de forma complexa. Meu palpite é que ele tem uma fixação por você”, diz um personagem a Susan ainda no início, colocando as cartas na mesa.

Em meio a certa previsibilidade, o roteiro, adaptado de uma história de Hagar Wilde, introduz do nada um bebê leopardo que o irmão de Susan lhe traz como presente de uma viagem ao Brasil. Potencializado pelo animal selvagem, que oferece ao mesmo tempo um ponto cômico e uma carga de risco às cenas, Grant e Hepburn protagonizam momentos de humor físico únicos em suas carreiras. Um caminhão com galinhas tomba no meio da rua, e Hepburn agarra o leopardo pelo rabo para que ele não avance em cima delas. Ao final, Hepburn derruba sem querer a imensa ossada de dinossauro que Grant monta em seu museu, ficando pendurada no ar apenas pelo braço.


A recepção em torno de Levada da Breca mostra o quanto Hawks flertava de maneira avançada com a screwball. O filme foi um sucesso de crítica quando foi lançado em 1938, mas fracassou nas bilheterias – como a popularidade de Grant era alta na época, creditou-se o fracasso a Hepburn, a uma possível inadequação da estrela ao seu papel. O tempo provou a permanência da obra de Hawks como uma comédia à frente de seu tempo. Em 2000, uma enquete do American Film Institute classificou Levada da Breca em 14º na lista das melhores comédias de todos os tempos.


Uma curiosidade: Levada da Breca marca o primeiro uso mais ambíguo da palavra “gay” em um filme de Hollywood. Ao ser flagrado e indagado pela tia de Susan por que está vestindo a camisola dela, Grant responde, em tom de ironia: “Because I went gay all of a sudden!” (“Porque me tornei gay de repente!”). O uso da palavra é ambíguo: será “gay” já no sentido moderno de “homossexual”, ou ainda no sentido arcaico das peças de Shakespeare (“alegre”, “leve”)? A dúvida permanece até hoje, mas não deixa de ser um sintoma desse avançado flerte com os gêneros que marca a screwball comedy.


Hawks leva o gênero ainda mais longe, tanto no roteiro quanto na direção, dois anos depois em Jejum de Amor (His Girl Friday, 1940). Em vez de dois desconhecidos que vão se apaixonar, o diretor inicia o filme com um casal já divorciado, o editor de jornal Walter Burns (Grant) e a ex-repórter Hildy Johnson (Rosalind Russel). Hildy faz o caminho inverso ao de boa parte das mulheres na época: uma repórter muito talentosa, ela largou o jornalismo após o divórcio com Walter e planeja casar-se com um pacato cidadão de Albany, na periferia de Nova York, tornar-se mãe e dona de casa.


Todo o filme, claro, vai no sentido de reconciliar esse casal cuja sintonia é evidente, e que nunca devia ter se separado. Hildy tenta, mas não resiste às perspectivas do novo furo jornalístico lançada por Walter. Como em Suprema Conquista, o homem está numa posição superior e faz de tudo para dominar a mulher, que resiste. E esse meio de dominação não é mais o âmbito doméstico-conjugal, e, sim, o mundo do trabalho (o teatro em Suprema Conquista; a redação de um jornal neste último).


Em Jejum de Amor, Hawks leva ao paroxismo um dos pilares da screwball comedy: os diálogos excessivos e altamente acelerados, que extraem humor da própria velocidade do que é falado. Numa cena, Walter e Hildy falam ao mesmo tempo ao telefone com terceiros. O filme vai num crescendo de histeria cômica até a meia hora final – talvez a mais “falada” da história do cinema –, quando os diversos personagens entram e saem da sala da redação sem parar (incluindo a improvável futura ex-sogra de Hildy).


Um personagem começa a falar antes de o outro terminar – artifício que já aparece na peça original de Ben Hecht, mas que Hawks ajuda a elaborar. “Eu percebi que, quando as pessoas falam, elas falam umas por cima das outras, principalmente aquelas que falam muito rápido ou que estão discutindo ou descrevendo alguma coisa. Então escrevemos os diálogos de modo que o início e o final das frases fossem desnecessários; eles estão ali para serem sobrepostos”, declarou Hawks anos depois numa entrevista ao diretor Peter Bogdanovich, para a TV.


Influências

Boa parte dos críticos considera que a screwball comedy sobreviveu como gênero por pouco mais de uma década – seus últimos representantes ainda na primeira metade dos anos 1940. Entre os possíveis fatores, a luta de classes, um dos pilares do gênero, perde força com o fim da Grande Depressão, e mais ainda após o final da Segunda Guerra.


Com alguma flexibilidade, incluem-se aí alguns filmes de Ernst Lubitsch (Ninotchka, 1939; Ser ou não Ser - To Be or Not to Be, 1942), Frank Capra (Esse Mundo é um Hospício - Arsenic and Old Lace, 1944) e dois filmes tardios do próprio Hawks: A Noiva Era Ele (I was a Male War Bride, 1949) e O Inventor da Mocidade (Monkey Business, 1952), saborosa releitura dos elementos que funcionaram em Levada da Breca, com o leopardo sendo substituído por um chimpanzé.


A influência da screwball se estende até aquela que hoje é considerada a melhor comédia de todos os tempos: Quanto Mais Quente Melhor (1959), de Billy Wilder. Embora o triângulo inusitado entre Jack Lemmon, Tony Curtis e Marilyn Monroe não configure exatamente uma guerra dos sexos, a ironia dos diálogos e o ritmo acelerado de algumas sequências fizeram de Wilder um dos responsáveis por prolongar o legado de Hawks e Capra no gênero.


No cinema contemporâneo, os irmãos Coen são os únicos grandes tributários das screwball comedies em três filmes mais recentes: Arizona Nunca Mais (1987), comédia repleta de humor físico sobre um ex-detento e uma policial que decidem sequestrar um bebê; Na Roda da Fortuna (1994), comédia de diálogos frenéticos e atuações um tom acima na qual a repórter vivida por Jennifer Jason Leigh é inspirada na personagem de Rosalind Russel em Jejum de Amor; e O Amor Custa Caro (2003), autêntica screwball de diálogos espertíssimos na qual George Clooney e Catherine Zeta-Jones acrescentam à guerra dos sexos um tema contemporâneo: os milionários contratos pré-nupciais em voga na elite americana.


Nas atuais comédias românticas americanas, gênero popular por atrair o público feminino, o tema da guerra dos sexos encontra-se ao mesmo tempo diluído e atualizado, num momento de pós-feminismo em que a mulher já tem garantido o seu espaço no mercado de trabalho, mas homens e mulheres ainda tentam acomodar-se a seus novos papéis. De modo geral, muitos dos procedimentos de mise-en-scène que consagraram o gênero, como os diálogos velozes e o humor físico dos atores, raramente aparecem.


Na TV, o gênero screwball gerou seus derivados, mas sem a ousadia formal dos filmes dos anos 1930. O melhor representante do gênero segue sendo I Love Lucy, a série dos anos 1950 estrelada por Lucille Ball e Desi Arnaz. Os conflitos do casal (que também vivia junto fora das telas) e o humor físico de Ball pontuavam os melhores momentos do programa. O conflito de gêneros ainda é o mote de diversas séries, mas a acidez e rapidez dos diálogos e o humor físico parecem ter perdido terreno num veículo no qual o tempo condicionado da piada, simbolizado pela claque, não permite os arroubos de genialidade e inspiração que Hawks e Capra experimentaram há 80 anos.

 

[1] SARRIS, Andrew. You Ain’t Heard Nothin’ Yet: The American Talking Film, History & Memory, 1927–1949. New York: Oxford University Press, 1998.

 

Thiago Stivaletti é jornalista e crítico de cinema, graduado em jornalismo pela ECA-USP e pós-graduado em Cinema e Sociedade pela Universidade de Nanterre (França). Cobre o Festival de Cannes para o portal UOL e foi membro do comitê de seleção de filmes da 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Mantém o blog Longos Planos.


Texto publicado originalmente no catálogo-livro "Howard Hawks Integral", disponível aqui

 

Assista ao filme "Jejum de Amor", de Howard Hawks disponível em nosso catálogo virtual.



Confira o debate com o curador, pesquisador e crítico Diego Silva Souza.


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