A Presença do Grupo em Howard Hawks

por Paulo Augusto Gomes


Vários são os filmes de Howard Hawks caracterizados pela presença de um grupo. Ele, que realizou grandes obras em praticamente todos os gêneros cinematográficos, tem filmes marcantes em que indivíduos estão no centro isolado das ações. Mas no western (Red River, The Big Sky, Rio Bravo, El Dorado e Rio Lobo – ou seja, todos os que dirigiu), no filme de aventuras (The Dawn Patrol, The Crowd Roars, Only Angels Have Wings, Air Force, Hatari!, Red Line 7000), no filme de gângsteres (Scarface), até mesmo na ficção científica (The Thing From Another World)[1] que, mesmo assinado por Christian Nyby, montador de alguns filmes de Hawks, deixa claro a quem o assiste que se trata essencialmente de uma obra do cineasta, fato atestado por muitos que fizeram parte da equipe técnica, que garantem que ele era quem realmente dava as ordens no set de filmagem), lá está o grupo buscando levar a cabo uma tarefa difícil e arriscada. A exceção, no caso, são as comédias, nas quais o fracasso e o deboche recaem sobre indivíduos, mas mesmo aí não há unanimidade – e o exemplo mais evidente é Bola de Fogo (Ball of Fire, 1941), em que um grupo de eruditos é confinado em uma casa, com o objetivo de preparar uma enciclopédia.


Nenhum grupo de Hawks se parece com o outro; cada um apresenta peculiaridades de acordo com a história narrada. Assim, em Scarface - A vergonha de uma nação (Scarface, 1932) o grupo se coloca à margem da lei e executa ações violentas, das quais o assassinato é apenas uma delas. Não é por outro motivo que se trata de um dos raros filmes de seu autor em que o personagem principal morre. Quase sempre a aventura em Hawks vem misturada com boas doses de humor, mas a condição de comédia de Bola de Fogo (e de sua refilmagem inferior, A Canção Prometida -A Song is Born, 1948) faz com que alguns personagens se aproximem de caricaturas e passem por situações grotescas e ridículas, o que sempre os faz crescer como seres humanos. Dos grupos, fazem parte elementos de ambos os sexos, embora o número de mulheres seja sempre inferior ao de homens. Há, inclusive, pelo menos um caso em que elas simplesmente não aparecem: é A Patrulha da Madrugada (The Dawn Patrol, 1930), no qual uma esquadrilha de aviação, sediada em algum ponto da França, durante a Primeira Guerra Mundial, não tem espaço para a presença feminina. Afinal, a par de apresentar um ponto de vista eminentemente masculino (afinal, são filmes dirigidos por um homem que, no entanto, tiveram como roteirista em muitos deles uma mulher, a grande Leigh Brackett), a dificuldade das tarefas, que muitas vezes inclui a violência, exige o controle que Hawks vê como uma característica dos homens. Suas mulheres, sempre muito femininas, não se impõem pela força e, sim, pela malícia; estão sempre no comando das situações, mas graças à sua capacidade de desconcertar os machos através de suas reações imprevisíveis e inesperadas. Não são especialistas, como seus colegas masculinos; sua função é mais a de prover a estabilidade necessária à execução das tarefas. Mas têm características que as aproximam muitas vezes do sexo oposto: são atrevidas, às vezes arrogantes, vestem-se muitas vezes à maneira masculina, usando calças compridas, e fumam desbragadamente. Quase sempre tomam a iniciativa da conquista, frente a homens aparvalhados diante de seu ímpeto. Mas que ninguém duvide de sua feminilidade: são essencialmente modernas, na sua maneira de se comportar diante de um mundo que tenderia a engoli-las, se agissem diferente.


Os grupos, nos filmes de Hawks, embora representantes legítimos da sociedade na qual se inserem, quase nunca estão em contato direto com essa sociedade. São vistos em núcleos isolados, distantes de qualquer centro urbano. Em O Monstro do Ártico (The Thing From Another World, 1951), por exemplo, toda a ação se passa em uma estação polar, na qual cientistas investigam a descoberta de um disco voador acidentado. Com eles, apenas uma mulher tem papel preponderante. Em Hatari! (Hatari!, 1962), caçadores de animais para zoológicos (que não os matam, apenas os capturam) estão em um acampamento em algum lugar da Tanzânia, no interior da África; em Águias Americanas (Air Force, 1943), boa parte da ação acontece a bordo de um avião, uma fortaleza voadora que, durante a Segunda Guerra Mundial, atua no Pacífico. Aqui, as mulheres são vistas apenas no momento de se despedir de seus maridos ou filhos. Em Paraíso Infernal (Only Angels Have Wings, 1939), o cenário é o fictício porto sul-americano de Barranca, exportador de banana, no qual também opera uma unidade de correio aéreo. As exceções são Scarface - A vergonha de uma nação, no qual o grupo executa suas atividades na cidade grande, e Bola de Fogo (sempre é bom relembrar: é uma comédia), em que a ação dos enciclopedistas acontece praticamente todo o tempo intramuros, em uma casa em Nova York, tornando-os isolados do meio em que vivem e trabalham.


Também variam bastante as relações entre os componentes do grupo. Quase sempre, a maciça presença masculina implica uma forte competitividade; às vezes, trata-se basicamente disso, como o demonstram os filmes sobre automobilismo (Delirante - The Crowd Roars, 1932 -, Faixa Vermelha 7000 - Red Line 7000, 1965), nos quais a disputa por títulos exige o confronto, deixando quase de lado as relações de amizade e companheirismo. No outro extremo está uma obra como Águias Americanas, na qual o sucesso da missão depende, sobretudo, do compromisso individual com o objetivo da missão, fazendo de cada um cúmplice da meta comum. Próximo dessa situação é o apoio irrestrito dos enciclopedistas à união do jovem professor vivido por Gary Cooper com a namorada de um gângster. São homens idosos, que se entusiasmam diante da possibilidade de uma relação com a qual não mais podem sonhar, o que deixa claro sua generosidade. Antagonismos podem existir, mas, se levados a extremos, seja por que motivo for, acabam prejudicando o sucesso final. Mais uma vez, o exemplo é O Monstro do Ártico, em que a posição divergente de alguns cientistas diante da captura de um alienígena quase provoca uma tragédia. Em um nível mais ligeiro, é o que acontece em Hatari!, em que dois integrantes do grupo disputam o amor de uma garota – que, no final das contas, demonstra sua preferência por um terceiro. Acontece ainda de, em certos casos, o grupo se subordinar a temas que, em determinada história, interessavam mais a Hawks. É o que acontece em O Rio da Aventura (The Big Sky, 1952), em que há, sim, a presença de um grupo, mas neste caso o cineasta se mostra mais interessado em desenvolver outro de seus temas básicos: a amizade entre dois homens – no caso, entre Kirk Douglas e Dewey Martin.


Nos grupos hawksianos, a autoridade está sempre implícita, mas raramente é imposta. Cada um reconhece seu espaço e procura se ater a ele. Disputas, nessa área, acontecem quando subordinados investem contra seus superiores, quase sempre ignorando ordens ou orientações que, depois, irão se provar corretas e necessárias. Em A Patrulha da Madrugada, por exemplo, o chefe dos aviadores, vivido por Richard Barthelmess, assume um voo ignorando as diretrizes de seu comandante – e, por isso, encontra a morte. Em Onde Começa o Inferno (Rio Bravo, 1959) o delegado Dude (Dean Martin) atinge na cabeça o xerife que testemunha sua humilhação ao apanhar um dólar em uma escarradeira, a fim de satisfazer seu alcoolismo. Mais à frente, ele novamente agride seu superior e ouve dele a observação: “É a segunda vez que você me atinge; não repita mais isso”. Em Paraíso Infernal, o personagem de Thomas Mitchell, cuja visão está cada dia pior, ignora a orientação do chefe, Cary Grant, e parte para mais uma missão aérea. Volta com o pescoço quebrado e morre em seguida. Mas há pelo menos um exemplo marcante de excesso de autoridade, que se vê em Rio Vermelho (Red River, 1948), quando o homem que comanda o transporte da boiada – vivido com enorme competência por John Wayne – comete inúmeros excessos e acaba por se comportar como um tirano. É rejeitado por seus comandados e vê sua autoridade refutada. Esse conceito de autoridade surge naturalmente nos filmes de Hawks – ou então não vigora.


Em Hawks, diferentemente do que se vê nos filmes de seu grande amigo John Ford, a autoridade não é uma questão de hierarquia. Trata-se de pessoas adultas, que assumem responsabilidades e que sabem que terão que prestar contas por cada um de seus atos – não à sociedade, mas a si mesmos. Assim, o líder (papel sempre vivido por John Wayne, nos filmes que fez com Hawks) tem muito de uma figura paternal, que se preocupa e zela pelo conforto, bem-estar e segurança de seus companheiros. Para integrar o grupo, cada um tem que demonstrar perícia e integração ao espírito geral. Veja-se, por exemplo, a iniciação do francês Chips (Gérard Blain) em Hatari!: ele passa por um teste de suas habilidades com uma arma, após haver demonstrado seu espírito de união, ao doar sangue para outro integrante que havia sido ferido por um rinoceronte. Em El Dorado (El Dorado,1966), há também um desses momentos especiais: o jovem vivido por James Caan entra em um saloon no qual estão John Wayne e o último dos assassinos do homem que o criou. Caan mata esse elemento e é admirado por Wayne por isso. Na mesa onde estão, o chefe daquele pistoleiro medíocre comenta com Wayne que não havia necessidade de usar quatro homens para matar um velho, ouvindo como resposta: “é porque eles não são bons”. Nesse breve diálogo, fica clara a postura de Hawks: todo grupo é composto, obviamente, por indivíduos – mas cada um deve ser competente o bastante para resolver seus próprios problemas. Só então ele terá uma real contribuição a dar ao conjunto. E, inversamente, poderá se beneficiar da contribuição dos demais integrantes, quando se tratar de administrar dificuldades que só um elenco unido poderá solucionar. Na vida real, contudo, Hawks era mais rígido que seus personagens. Tornou-se conhecido o desentendimento que teve com Harry Carey Jr., contratado para viver um papel em Onde Começa o Inferno. A relação ia bem até o momento em que o ator (cujo pai foi um famoso astro do cinema mudo, tendo trabalhado várias vezes com Ford e sendo também um dos principais personagens em Águias Americanas), julgando-se à vontade para chamar o diretor de “Howard”, percebeu que ele ficou furioso por não ter sido tratado como “Mr. Hawks”. Foi imediatamente mandado embora e seu personagem simplesmente desapareceu do filme. No entanto, por razões contratuais, teve seu nome mantido na ficha técnica, o que causou espanto em muitos críticos.


Talvez o maior problema nos filmes que dizem respeito ao grupo esteja em Onde Começa o Inferno e nos dois outros que se relacionam diretamente com ele, El Dorado e Rio Lobo (Rio Lobo, 1970). Onde Começa o Inferno foi um dos maiores sucessos de bilheteria de Hawks; imediatamente antes dos outros dois, ele havia feito alguns filmes – O Esporte Favorito dos Homens (Man’s Favorite Sport?, 1964) e Faixa Vermelha 7000 que foram fracassos financeiros. Decidiu ele, então, voltar a um porto seguro e rodou os dois outros westerns, seus últimos filmes. Não são propriamente refilmagens; melhor seria considerá-los variações em torno do mesmo tema. A bem da verdade, são até bastante diferentes, embora muitas sejam as citações que o diretor faz de si mesmo, em termos de diálogos, cenas e situações, o que faz com que alguns críticos desatentos pensem que Hawks está se repetindo. Nos três filmes, por motivos diferenciados, o grupo se encontra no interior de uma cadeia, mantendo preso um notório fora da lei e sofrendo o assédio dos rivais. Mas, até que isso aconteça, situações básicas distintas se apresentam. Em El Dorado, a primeira parte é marcada pelo que o próprio Hawks denominou “tragédia grega”: a morte de um garoto pelo próprio John Wayne. E em Rio Lobo, o painel é ainda mais abrangente e iluminador: a primeira parte diz respeito à Guerra de Secessão, que dividiu os Estados Unidos em duas partes, Norte contra Sul. Wayne, nortista, tem como adversários dois sulistas que, na segunda parte, estarão ao seu lado. Tudo fica claro: o grupo não se deixa necessariamente influenciar pelas grandes tragédias coletivas; o que os move são modos de conduta individual. O diálogo de Rio Lobo deixa isso claro: os homens que Wayne odeia não são os sulistas, mas alguns nortistas, seus colegas de farda, que venderam informações aos inimigos, as quais acabaram por matar alguns de seus amigos. Ou seja, ele investe contra aqueles que quebraram o código de ética hawksiano. Não é mesmo fácil recriar uma obra que beire a perfeição e El Dorado e Rio Lobo são mesmo inferiores a Onde Começa o Inferno, mas de forma alguma são indignos de atenção. São, até, muito bons filmes, que se diferenciam do original em detalhes significativos: enquanto Onde Começa o Inferno é uma obra marcadamente solar, El Dorado e Rio Lobo, filmes da velhice, são obras noturnas, crepusculares.


Hawks começou a filmar ainda no tempo do cinema mudo. Sua carreira é uma longa trajetória, do artesão a serviço dos grandes estúdios ao produtor-diretor de seus filmes. Durante esse caminho, adquiriu também a consciência que caracteriza todo grande autor moderno, o que pode ser observado em dois pequenos detalhes que marcam as fichas técnicas de seus filmes, a partir dos anos 1950: primeiro, em vez de inscrever “produced and directed”, como o fazia a grande maioria de seus colegas, ele colocava “directed and produced”, ou seja, invertia a ordem de apresentação, com o “directed” em letras maiores que o “produced”. Fica claro o tipo de trabalho que, para ele, era o mais importante. E seu nome, diferentemente do que acontece com os demais integrantes da ficha técnica, não vem em letras maiúsculas: o que é exibido é sua assinatura. Ou seja, ele sabia com segurança qual era o seu lugar e o que tinha a dizer. O grupo é tão somente uma das características marcantes de sua obra. A exemplo do seu amigo Ernest Hemingway, ele poderia dizer em relação ao mundo em que vivemos: “one man alone ain’t got no chance”, isto é, “um homem sozinho não tem chance”.

 

[1] Nomes dos filmes em português: Rio Vermelho, O Rio da Aventura, Onde Começa o Inferno¸ El Dorado, Rio Lobo, A Patrulha da Madrugada¸ Delirante, Paraíso Infernal, Águias Americanas, Hatari!, Faixa Vermelha 7000, Scarface – a Vergonha de uma Nação, O Monstro do Ártico.

 

Texto publicado originalmente no catálogo-livro "Howard Hawks Integral", disponível aqui

 

Assista ao filme "Jejum de Amor", de Howard Hawks disponível em nosso catálogo virtual.



Confira o debate com o curador, pesquisador e crítico Diego Silva Souza.


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