Interregno, um intervalo temporário entre dois reinos.

por Léa Souki


No ano de 1967, em plena ditadura Costa e Silva, representante da ala mais dura das forças armadas, o Brasil ainda não sabia avaliar que rumo as coisas iriam tomar, abertura ou fechamento do regime. O movimento estudantil em Belo Horizonte era ativo e parecia germinar nele uma conexão com alguma alternativa fora de seus muros. A juventude mais erudita e bem-informada da universidade era diversa e, na época, comportava níveis diferentes de erudição e conhecimento artístico para além do estrito envolvimento no ativismo do movimento estudantil.


Numa Belo Horizonte provinciana, apenas uma das faculdades se encontrava fora do perímetro da Avenida do Contorno. Num espaço relativamente pequeno, a ligação que ensejava a articulação do movimento estudantil era bastante possível de acontecer. Considerando ainda que a mobilidade bairro-centro colocava todos os terminais de transporte público no centro da cidade. Nesse espaço se dava a integração, concertação e conflito com a repressão e das diversas tendências entre si. No ano de 1967 as ruas era o espaço da contestação estudantil.


No contexto da ebulição da juventude contra a ditadura, um interregno. Influenciados pelas tendências nacionais e internacionais um grupo de jovens se sobressaía pela erudição e conhecimentos do mundo exterior, embora enraizados no Brasil, que eles tinham que entender, estudar e criticar. O mais provável é que tenham sido tocados pelo movimento cultural do passado recente do CPC , Centro Popular de Cultura, da UNE. Ele possuía, além de acesso às artes plásticas, uma cultura musical herdada da tradição barroca mineira e realimentada pelas fontes internacionais e sobretudo, pelo cinema. O cine Pathé e posteriormente a Imprensa Oficial se tornaram em BH a possibilidade de poder assistir Hichtcock, Samuel Fuller, John Ford, Joseph Losen, Varda e uma constante possibilidade de filmes não estritamente comerciais e, sobretudo, de Godard. Os conhecedores, protagonistas e executores do Interregno, alimentaram mais de uma geração abrindo as portas para aqueles que estavam atentos para o cinema e a cultura, numa Belo Horizonte localista , ainda que vivaz.


O “Interregno” fala de uma geração de jovens que se colocaram fora da província sem, contudo, negarem as raízes mais profundas do barroco registrado na arquitetura, na música, nos objetos toscos que introduzem ao curta. Pareciam não querer descrever sua aldeia para se tornarem universais. Ao contrário, estando fora da aldeia buscam em suas raízes respirar em compasso com aquilo que é permanente, as pedras e os utensílios do século XVII no ambiente das minas.


O réquiem inicial conduz à emoção da entrada no subterrâneo da cava fria, a emoção calorosa encontra nas pedras sobrepostas que resistiram ao tempo, uma combinação que cria o clima de viver algo que não é passageiro. Pedra sobre pedra, a arca, o candelabro, o tacho e oratório e finalmente, os sinos. Está criado o clima de permanência e o espectador já entendeu que “temos passado”.


Chegou “Can’t buy me love”, danças, sorrisos e, sobretudo, conversas. Chega então a inspiração, a beleza silenciosa e reflexiva de uma mulher que poderia ter saído de um filme de Louis Malle. Completamente diferente do padrão de beleza valorizado na província, ela chega e sugere algo. Bela, sem maquiagem, parece se inteirar de algo, o espectador tenta adivinhar o que ela busca ou antevê.


O som de Old Folks trata de conduzir o espectador a algo desconhecido, contínuo. Teria sido profético o final, éramos conduzidos a um som contínuo e viajante. O fechamento do regime já estava em andamento, no ano seguinte o AI5.


Direção de Flávio Werneck, filmado na Cave Calabouço, em Ouro Preto.