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E la nave va, em Suspenso

Por Maria Trika

 

Para a Equipe do Cine Humberto Mauro,


Ando com questões sobre o texto e, ao rever o filme neste final de semana, as dúvidas se firmaram e me motivaram a enviar este email:


Começar uma crítica sempre é (repetitivo e) meio autoanalítico (da gente mesmo e, principalmente, do porque se escrever sobre um filme ou sobre cinema). 

A palavra não alcança o filme, então porque dizer? 


- é uma pergunta impossível.


Entendo o papel quase educacional de algumas críticas, mas será essa a função que poderia desempenhar junto de um filme? A pergunta do início é sempre: por que começar? 


E a questão se expande.. tudo já foi dito, dizer de novo da relação de Fellini com o desejo, o recalque da burguesia e seu vampirismo humanitário com a classe operária, a pulsão do moralismo, a traição das traduções e o território que a linguagem cria em seus filmes (é ela nossa ponte do real ao sonho, valendo tudo e nada), ou qualquer coisa do gênero…me parece redundante. Assim como babar o ovo dele elogiando a genialidade dos planos, da vibração da arte e figurinos e dos simbolismos na narrativa..


Por esses motivos que, ultimamente, tenho me afastado desse formato e ando buscando escrever textos que conversem com o filme, dizendo ou não sobre eles. 


E no caso de Fellini e, ainda mais especificamente, de Fellini nesse filme em questão, o único caminho seria lidar com as brechas, os desvios e o delírio.


O cheiro do Fellini nos filmes é sempre um convite: assisto seus filmes com o corpo pulsando, querendo gozar, movimentar, destruir e  devorar coisas.. é seu lado bon vivant dionisiaco que se apodera das imagens (na tela e nos olhos) e contamina tudo.


Sinto que gostaria de ver seus filmes sempre à luz do dia, ou em meio a um bacanal regado a muitos sons e movimentos. 


E como ele mesmo atesta no filme: a tradução da cor e do som, é quase impossível. 


por tudo isso te envio uma crítica péssima - como crítica.

mas que talvez, seja uma conversa interessante, um encontro possível entre os delírios.




com carinho,

Maria Trika




E la nave va,

em Suspenso 




a respiração deve acompanhar o passo.

a segunda fase do neo realismo italiano se localiza nos desvios.  

matéria // ausência  vida // morte, o sentido // o desejo e o delírio e  o medo e  o absurdo 

e o sonho.


qual é a cor dessa palavra para você? 


assim começam os filmes, testando as resistências entre o real e o que o “supera”, 

o "realismo" é composto também por aquilo que no concreto nos falta. Cada diretor desse movimento conduz essa realidade de uma maneira. Dentre eles, Fellini escolhe a métrica de um entre-sono. 

                        lembre-se do sono da tarde. 


aquele que, nos corpos cansados do trabalho, abre outro espaço, um  outro estado de entrega e resistência, fazendo o sonho infiltrar a realidade. (qual o som de uma revolução?)

Aqui, 


em suspenso,


 oscilamos entre o sono -a inexistência, o peso e a materialidade profunda e assentada do corpo em suas necessidades mais básicas- e a excitação do sonho -com suas imagens mais extraordinárias e absurdamente reais. Seus filmes geralmente oscilam entre essas naturezas fazendo com que a contestação já não faça mais sentido, apenas acompanhamos. Fellini traz o absurdo sempre como algo explícito e pequeno. Não tem essa coisa quase careta do contemporâneo de apontar o que é estranho “olha que genial: você está vendo a realidade e o sonho. Vc acha que é uma narrativa? Não! Na verdade, é um sonho um delírio algo que “não existe” está infiltrado na sua falsa segurança de uma narrativa”. NADA DISSO! O cinema americano talvez se ampare na estabilidade, e, também, por isso, 

é muito pouco livre. no cinema italiano a segurança é o calor da incoerência: está tudo aqui, em contradição e realidade. O filme já se apresenta como travessia, se situando na transição de três filmes: o que está acontecendo (personagens em um navio em curso do velório e entrega das cinzas de uma grande artista); o filme que está sendo filmado e documentado (que o jornalista narra); o filme que a gente assiste (aquele que é um símbolo do cinema e sua transgressão morte-vida,) e, ainda, um quarto (o que se revela no olho,  aquele que nos distrai e entretém nos criando experiências sensíveis e aquele que é visto por uma parte que não sabemos)


descrevendo // comprovando a tese: o primeiro filme começa, de início, temos a dinâmica e disputa do olhar - ser visto, imortalizado na imagem, na sociedade, no desejo. Chega a morte. o que nos leva ao som e a cor,  o outro filme se apresenta: o corpo morto embarca e      

                                                                                                                               nós também.


No cinema a morte fica suspensa. Os olhares ainda perambulam entre os personagens do filme e a câmera Nosso narrador tenta nos contextualizar, mas os filmes se batem e se confrontam.  é a a cega a única a ver as cores do som e das vozes. O filme é questionado e explicado em conjunto, Fellini faz seu território na transição entre as coisas. Tudo é, deixando de ser.


como escrever pequenos sussurros no texto? Queria ver seus filmes gozando. Me parece que teriam mais sentido assim, quase me convidam, diria. O romântico artista que idealiza a falecida (talvez só a ame mesmo agora, morta, ela se tornou a imagem pura do desejo). O espetáculo para o povo que trabalha na lareira e já passa mal na superfície. Símbolos e mais símbolos. A tentativa do texto é assemelhar a liberdade do filme. Reproduzir o gesto para que se desloque, para que se aproxime do filme e da sensação de ter visto. PUM PUM PUM, como traduzir um som? boca. boca. boca? as relações se atravessam, perdemos a referência, o desejo escapa e é recalcado. chegam os náufragos. Qual a cor do som da palavra revolução? rinoceronte. 


O FILME DENTRO DO FILME DENTRO DO FILME. Fellini se revela. Tudo é, deixando de ser.

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