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12 HOMENS E UMA SENTENÇA

Aos exatamente 60 minutos de projeção de 12 homens e uma sentença (1957), primeiro longa-metragem de Sidney Lumet, um dos personagens, todos eles membros do júri em um julgamento de assassinato, menciona a palavra que esteve em minha cabeça desde o primeiro minuto do filme: democracia. A menção dessa palavra me surpreendeu muito positivamente, principalmente porque com ela me sinto próxima do que, suponho, tenham sido as intenções de realização de Lumet e do roteirista Reginald Rose. E isso, para o articulista de Cinema, significa missão cumprida.


Mas já de partida preciso abrir parênteses para reconhecer, junto com todo o resto da humanidade, que 12 homens e uma sentença é uma obra-prima de grande complexidade temática resumida com gênio em uma hora e 36 minutos. E essa obra é luxuosa o suficiente para que suas ideias sobrevivam vibrantes quase sessenta anos depois. Isso me impele a reconhecer o que o filme oferece ao debate permanente sobre a humanidade, para que, mais uma vez, no século 21, possamos enxergar a nós mesmos pelo seu viés. Falar sobre assuntos tão relevantes me mantendo no universo semiótico do Cinema é algo que me dá imenso prazer.


Agora retorno para falar que meu espanto é positivo, mas apenas parcial. De fato, as primeiras imagens do filme enquadram em plano contra-plongée o prédio imponente da Corte de Nova York, para que, já dentro dele, mergulhemos em um breve plano-sequência que revela um pouco das dinâmicas e indivíduos para quem aquele edifício foi construído. Essa mesclagem entre espaços e pessoas, terminando na imagem de doze homens dispostos em fileiras diante de um juiz, explicita cinematograficamente que é de democracia que Lumet vai tratar.


O termo "democracia" está sendo usado neste texto, assim como no filme, para comunicar que uma organização institucional democrática, como é o sistema judiciário, existe para regular, proteger e garantir que o povo possa governar e representar a si mesmo, atendendo à finalidade última da democracia. Portanto, um julgamento de assassinato realizado dentro das leis estadunidenses, para ser democrático, deverá ser realizado por pessoas do povo, estando ali o juiz apenas mediando suas ações e relações para que nada saia dos limites dos acordos institucionalizados que constituem o arranjo democrático.


DEMOCRACIA E PACTO CIVILIZATÓRIO

Porém, no caso de 12 homens e uma sentença, não é apenas de democracia que se trata, mas também de pacto civilizatório. Na verdade, não vejo problema em que esse termo não tenha sido usado no filme, embora a cada frame, a cada frase dos diálogos, ele esteja presente. Infelizmente, muito embora seja cada vez mais urgente discutir o pacto civilizatório em meio a um novo avanço do fascismo sobre o mundo, ainda hoje não constato muita gente pensando nesse sentido.


Meu contexto e motivação, portanto, é a pouca atenção dada ao fato de que o que imaginamos como sendo a distinção entre civilização e barbárie não é matéria fechada. Aliás, muita gente que eu respeito, jornalistas principalmente, chamam de democracia o que está na esfera do pacto civilizatório, o que evidencia a necessidade premente de um debate conceitual para compreendermos o que esses termos denotam, e como suas substâncias se atravessam.


Para tratar de 12 homens e uma sentença, esboço uma definição de democracia como o conjunto de ações, organizações e decisões institucionais que buscam manter e garantir o pacto civilizatório. Este, por sua vez, consistiria na instauração de relações de confiança entre os seres humanos que precisam manter-se amplas o suficiente para que eles possam viver coletivamente. Essas relações vão se expandindo desde a infância, a partir de instâncias institucionais mais restritas, como a família, a escola e, na maioria dos casos, a religião.


Ao longo da vida e da convivência entre as pessoas, é apropriado que essas relações de confiança se expandam cada vez mais, abarcando os espaços coletivos nacionais e transacionais. Isso significa que o pacto civilizatório é algo bem mais amplo que a democracia. As instituições democráticas são criadas em função dele, mas a civilização é mais que isso: é um sistema que envolve uma ideia de educação no sentido mais amplo que se possa imaginar. O sistema jurídico abarca apenas uma parte desse sistema educacional, porque aprender a viver em sociedade implica muito mais do que conhecer leis – ou, pelo menos, estar ciente de que elas existem.


Muitos autores em ciências cognitivas interessados em cultura, eu entre eles, baseiam essas relações de confiança no reconhecimento recíproco dos seres humanos como iguais entre si, embora, ao mesmo tempo, e paradoxalmente, também nos vejamos diferentes das outras pessoas. Isso quer dizer que passamos a vida nos equilibrando nesse jogo de semelhanças e diferenças, às vezes com grande vantagem para uma ou outra.


Junto com os atravessamentos entre democracia e pacto civilizatório como invenções humanas, essa ideia da civilização como se expandindo ao longo dos milênios com base nesse jogo semelhanças-diferenças (entre outros fatores, claro) é o eixo de minha análise de 12 homens e uma sentença. Nesse sentido, é significativo demais que toda a ação do filme se desenrole dentro do pequeno espaço de uma sala, a saber, o espaço de debate e embate entre os doze jurados que precisam concordar entre si completamente, os doze votando num mesmo veredito, para que o julgamento possa ser concluído, e a sentença, proferida. Essa sala é um microcosmo do atravessamento que me interessa tratar aqui.


UM MUNDO FEITO POR HOMENS E PARA HOMENS

É interessante observar 12 homens e uma sentença e já de início reconhecer que naquela sala está exatamente o grupo de seres humanos que, assim que nossos ancestrais perceberam que precisavam viver junto, definiu os rudimentos de um pacto civilizatório: os homens. Mesmo que, evidentemente, as mulheres tenham estado presentes desde os primórdios da civilização, sabemos que ao fim ela acabou sendo orquestrada em privilégio dos homens. A humanidade assim já nasce sob o signo não da igualdade, mas da diferença, na distribuição desigual de tarefas e trabalho, o que em si não é problema. Mas também já nasceu com uma distribuição desigual de poder - no caso, o poder concentrado nos homens, cabendo às mulheres servi-los de variadas formas.


Não há mulheres no filme de Lumet. É até pitoresco reparar que a sala inclui um inútil banheiro feminino ao lado do masculino. A propósito, foi apenas a partir de 1937 que o estado de Nova York passou a permitir que mulheres participassem facultativamente dos júris. Mas acho bem pouco provável que àquele período da sociedade americana as mulheres optariam por estar ali, principalmente pelo fato de que o mundo das leis e normas que amarra a presença de pessoas em espaços jurídicos é um mundo inventado pelos homens e para os homens.


NA SALA-PLANETINHA

Ao observar aqueles doze homens confinados, isolados numa sala pequena, imaginei que, por uma hora e meia, a sala se tornou uma espécie de planetinha Terra: a minimização de toda uma estrutura de mundo inventada pelos homens. E, a partir do problema que os trouxe até ali, aqueles homens precisariam lidar com os efeitos, a maioria deles nunca prevista, que resultam desse mundo coletivo e suas regras que criaram para si mesmos, à sua imagem e semelhança.


Nesse pormenor, 12 homens e uma sentença se aproxima do excelente Aniara, (2021, na Amazon Prime) cuja narrativa também se desencadeia com a necessidade de convivência compulsória entre pessoas confinadas numa nave espacial que por acidente se desgarra de seu percurso e fica à deriva no espaço. A nave também se torna um planetinha, e aí as pessoas precisam formar um consenso civilizatório para não perecerem.


Por sua vez, os personagens de 12 homens e uma sentença, nos limites do tempo real do filme, também precisam criar um consenso. E seu desafio é justamente como, regulados pelas instituições democráticas, poderão equilibrar-se diante dos paradoxos inevitáveis de um pacto civilizatório que nada mais é além de uma extensão imensamente estendida do que somos como seres humanos.


UM PROBLEMA DE CLASSE

Na sala-planetinha, poder-se ia supor que aqueles homens, descendentes biológicos e culturais dos que inventaram a necessidade de eles estarem ali, estariam em consenso imediato. Ora, são todos homens, e são todos brancos. Que problema haveria? Mas há. Eles são de classes sociais diferentes. E é essa diferença de classe que instaura o diferente, o contraditório. Ainda mais que o próprio crime se passou em uma área menos favorecida de Nova York. Ou seja, um crime cometido por gente pobre, desvalorizada, invisível, cujo destino não interessa a ninguém.


E o problema vem na figura do jurado 8 (Henry Fonda), apropriadamente vestido de branco, o que é bastante significativo e já indicador de paradoxos, porque aqui a ideia do branco como limpeza, pureza, não vem de qualquer certeza, mas da dúvida que o personagem joga sobre os onze votos a favor da condenação do réu, poluindo o consenso masculino que se instalou de partida.


De fato, observe o leitor que a diferença de classes entre eles, manifestada por exemplo na maior ou menor proficiência com que argumentam e na menção aos temas que lhes interessam, em princípio não parecia despertar esse contraditório. Mas é ela que, ao longo do filme, vai provocando um incômodo entre os homens, que eles começam a manifestar entre si, quebrando rapidamente com “a ilusão de que ser homem bastaria”, como compôs Gil.


Esse incômodo é construído não apenas com os movimentos de câmera e disposição relativa dos personagens (estratégias já muito descritas e analisadas por críticos e estudiosos), mas também com um calor crescente de verão, agravado pela chuva que os obriga a fechar as janelas e os isola mais ainda. Esse calor materializa na pele dos personagens o imenso desconforto que suas mentes experimentam à medida que as diferenças identitárias e de personalidade entre eles se impõem.


É DE LINGUAGEM QUE SE TRATA

Evidentemente, ser um filme de embates argumentativos confere ao roteiro e aos diálogos um peso dominante, definidor de enquadres, movimentos de câmera etc. Esse pormenor também nos leva a compreender por que 12 homens e uma sentença, mesmo assim, é uma obra prototipicamente cinematográfica, embora o fato de o enredo se desenrolar em um só cômodo possa favorecer uma teatralidade nas escolhas visuais de Lumet. Em alguns momentos, de fato, os planos e dinâmicas assumem marcações teatrais, mas a estrutura do filme de fato é de Cinema, sobretudo porque concretizar um roteiro fortemente embasado na argumentação levou Lumet aos planos fechados sobre os atores, às vezes isoladamente, às vezes em dupla (sobretudo quando as coisas ficam pesadas entre eles).


Na linguagem, percebemos talvez a maior atemporalidade de 12 homens e uma sentença, já que, como hoje, ali a diferença de classe é apenas a ponta do iceberg da desigualdade entre aquelas pessoas, já que algumas delas existem em planos civilizatórios distintos (falei mais extensivamente sobre isso em texto sobre a série The last of us). Isso também pode significar temporalidades distintas, evidenciadas nos argumentos de cada jurado.


Por exemplo: a evolução civilizatória diz respeito, entre outros aspectos, à invenção de melhores critérios para a definição do valor de um ser humano. Assim, ao evoluirmos de uma ideia apenas essencialista de ser humano (o que te caracteriza é sua origem social, renda, gênero etc.) para uma ideia procedural (o que te caracteriza são seus atos) do que é uma pessoa, melhoramos um pouco como espécie, e com isso melhoramos um pouco a democracia: as pessoas devem ser julgadas não pelo que são, mas pelo que fazem. 


O problema é que uma nova ideia nunca apaga a anterior, e ainda há quem julgue a punição e a imputabilidade a partir de categorias sociais: o “cidadão de bem”, o “pai de família”, a “mulher honesta” estariam fora do radar das leis porque, no senso comum do imaginário social médio, apenas pelo que são na sociedade já estariam isentos de qualquer possibilidade de crime.


Outra evolução civilizatória é a que diz respeito à educação familiar e escolar, que há séculos busca abolir o castigo físico porque, além de humilhar o espírito, ele nada tem a ver com nenhum processo de aprendizado. Defender castigo físico como forma de educação também é manifestação de uma mente em um plano civilizatório já superado pela humanidade – além de sempre deixar em aberto se o castigo é educativo mesmo ou se é uma forma de o adulto covardemente descontar na criança suas frustrações pessoais.


Mas a atualidade de 12 homens e uma sentença vai ao seu ápice em dois dos tipos presentes na sala: entre os que sequer compreendem que fazem parte de uma coletividade, e na figura daquele que recobre seu atraso civilizatório com um verniz retórico, dando ares de ciência a significados que em nada se diferenciam do que foi exposto nos argumentos mais fortemente reacionários. Recentemente, esses tipos, e seus modos de pensamento, ganharam visibilidade e parceria nas redes sociais que sustentam o avanço fascista contemporâneo.


DO QUE TEMOS MEDO?

O projeto do filme é transformar diferenças em semelhanças. Neste pormenor, noto seu único senão, causado pelo que notamos frequentemente no cinema estadunidense: a tendência em abordar e resolver conflitos milenares, como este que discuto aqui, criando consensos e paz após uma hora e meia de filme. No caso do roteiro de Rose, isso se tornaria possível com o apoio do método psicanalítico, que traz o sintoma à consciência através da linguagem – muito embora Sigmund Freud nunca tenha afirmado a possibilidade de alguma cura acontecer numa única sessão de uma hora e meia de terapia.


De todo modo, é interessante notar que esse escorregão final não desmerece o problema de ordem psíquica, mas também civilizatória, de quem bateu pé até o último momento pela condenação do jovem réu. E essa questão não é nada trivial, porque passa abaixo do radar do que normalmente definimos como nossos medos sociais.


Já é lugar-comum falar que tememos o diferente, por isso nos organizamos em tribos onde, isolados do resto, passamos a julgar que somos melhores e que valemos mais que todo mundo, ou seja, aqueles que não temos a menor ideia de quem são. Tememos o diferente, mas 12 homens e uma sentença mostra que também tememos o igual – tememos algo que vemos no outro e sabemos ser igual a nós, e por isso esse outro nos causa ojeriza e horror.


Então veja o leitor como estamos perdidos: por pânico do diferente, nos reunimos pelas semelhanças, mas, em algum momento, poderemos virar a esquina e entrar em pânico de novo porque deparamos com alguém igual a nós. E aí desejaremos matá-lo, porque odiamos nos ver projetados nos outros, assim como muitos não hesitam em matar os que julgam diferentes. A educação civilizatória serve grandemente para que esse desejo de matar – matar o diferente, matar o igual – se abrande com educação e conhecimento, para que essas coisas todas possam se transformar um dia em algum auto-conhecimento. 


Se algum dia largaremos de vez esse desejo de matar, não acredito. Somos uma espécie sem salvação. Somente podemos ser controlados pela educação, pela civilização.


Mas, no espaço de uma hora e meia, não é possível adquirir tanta educação, algo que muitas vezes uma vida inteira não assimila. O que é possível, e nesse sentido 12 homens e uma sentença recupera sua condição de obra de Arte maior, é não causarmos mais tragédias com nossa dificuldade em lidar com nossos paradoxos. No caso do filme, não causarmos talvez uma das maiores tragédias humanas, que é condenar e sentenciar um inocente.


12 homens e uma sentença é exatamente isto: um filme sobre o que nos é possível como sociedade, pelo menos neste momento. Trabalhemos para que as próximas gerações posam estender essa possibilidade. Sidney Lumet já fez a sua parte.

 

Este ensaio foi escrito por Ana Flávia Gerhardt como parte da mostra Lumet: Os Desafios Humanos.


Sobre a autora

Ana Flávia Gerhardt é articulista de cultura no site Longa História e escreve sobre o audiovisual da perspectiva das ciências cognitivas, campo de conhecimento em que militou por duas décadas na Universidade Federal do Rio de Janeiro.


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