O cinema em Minas Gerais: uma introdução

por Paulo Augusto Gomes


A primeira sessão pública de cinema aconteceu em Paris, a 28 de dezembro de 1895, no Grand Café do Boulevard des Capucines, promovida pelos irmãos Auguste e Louis Lumière, que nela fizeram projetar filmes curtos que haviam feito. A novidade se espalhou rapidamente em nível mundial e o que a princípio parecia “uma invenção sem futuro”, no dizer dos próprios irmãos, ganhou a preferência popular. A tal ponto que os Lumière e também Thomas Edison, nos Estados Unidos, treinaram fotógrafos para percorrer o mundo atrás de imagens diferentes e originais, com o objetivo de mostrá-las a públicos de todos os continentes. Não demorou para que também chegassem ao Brasil.


Em Minas Gerais, as primeiras exibições aconteceram em Juiz de Fora, em julho de 1897. Naquele ano, Belo Horizonte tornou-se a nova capital estadual e já em julho de 1898 acontecia a primeira sessão de cinema, em uma casa da rua Goiás. Claro que o sucesso foi grande – e o próximo passo seria a captação de imagens locais. Em 10 de julho de 1908, o “Minas Gerais” noticiava a projeção de “duas fitas de Belo Horizonte, tiradas pelo Sr. Raimundo Alves Pinto”. Com muita certeza, não seria um habitante da cidade, mas sim um fotógrafo de fora, que descobriu na jovem capital a possibilidade de fazer dinheiro. Era uma pessoa dinâmica e atualizada, como prova a filmagem que fez da rua da Bahia, a bordo de um bonde em movimento. Pode-se imaginar o entusiasmo que esse procedimento, hoje banal, despertou nas plateias então acostumadas à câmera fixa.


O primeiro mineiro a filmar no Estado foi Aristides Junqueira, cuja família residia em um casarão na esquina das ruas Bahia e Bernardo Guimarães. São dele as imagens brasileiras preservadas mais antigas, incluídas em um curta-metragem chamado “Reminiscências”. Esse filme reúne cenas familiares, algumas delas datadas de 1909. Junqueira criou uma empresa, pensando em trabalhar para governos estaduais e ricos comerciantes, interessados em registrar suas posses e realizações. Generoso, ensinou o ofício a colegas como Igino Bonfioli que, a partir de 1919, registrou a vida cotidiana de Belo Horizonte, além de se aventurar na área da ficção com “Canção da Primavera” (1923).


Geralmente, a produção cinematográfica pioneira se concentrava nas capitais ou em cidades de maior porte; assim aconteceu nos Estados de São Paulo (produções na cidade de São Paulo e em Campinas), Rio Grande do Sul (Porto Alegre e Pelotas), Pernambuco (Recife e Olinda) e Rio de Janeiro (produção concentrada na então capital do país). Minas Gerais, ao contrário, viu acontecerem polos isolados de realização cinematográfica em várias cidades, além de Belo Horizonte: Barbacena, Cataguases (onde surgiu Humberto Mauro), Pouso Alegre, Juiz de Fora e Guaranésia, inclusive com longas-metragens.


Visto pelas tradicionais famílias mineiras como uma invenção de feira, o cinema foi esnobado por elas, tendo sido o espaço de trabalho ocupado por pessoas de menor poder aquisitivo e sobretudo por imigrantes. Isso explica a grande quantidade de portugueses, franceses e sobretudo italianos entre os pioneiros; casos como os de Aristides Junqueira e Francisco de Almeida Fleming eram raros.


A maior parte desses primeiros filmes se perdeu. Eram revelados e copiados em laboratórios de fundo de quintal, utilizando produtos às vezes de qualidade inferior. Pior: o material básico das cópias era o nitrato de celulose, altamente inflamável, que bastava ser exposto ao sol para pegar fogo espontaneamente; apenas a partir de 1950, passou-se a usar no Brasil o chamado filme “safety”, à base de acetato de celulose, mais seguro que o nitrato. Sobretudo, à época, ninguém achava que estava criando “arte”. Fazia-se cinema assim como outros faziam sapatos ou criavam hortaliças, era um trabalho como qualquer outro. Assim, uma vez percorrido o circuito de exibição, o filme poderia ser vendido para que, da película, pudesse ser extraída a prata que rendia algum dinheiro.


A história do cinema em Minas pode ser dividida em duas fases distintas. A primeira é essa, dos pioneiros, quando os filmes eram mudos; a segunda tem início a partir de 1929, quando surge em São Paulo o primeiro filme falado, “Acabaram-se os Otários”, de Luiz de Barros. A chegada irreversível do som representou um golpe mortal para o cinema regional brasileiro. Apenas Rio de Janeiro e São Paulo, as grandes metrópoles, justificavam economicamente a instalação cara de laboratórios de som. Em Minas, uns poucos pioneiros ainda tentaram implantar um esquema mínimo de produção local, mas logo tiveram que abandonar essa ideia.


Isso explica porque apenas em 1950 surge o primeiro filme de ficção com participação local na produção, “Caraça, a Porta do Céu”. Com o surgimento do Centro de Estudos Cinematográficos – CEC em 1951, a atenção das novas gerações se concentra mais no estudo do cinema, sua estética e inovações teóricas e práticas.


Só aos poucos as novíssimas gerações vão se entusiasmando pelo fazer cinematográfico. Elas vão se integrando a equipes cinematográficas que vinham filmar em Minas (caso de “O Padre e a Moça” de Joaquim Pedro de Andrade e “A Hora e Vez de Augusto Matraga” de Roberto Santos) e, como um subproduto do CEC, criam o CEMICE – Centro Mineiro de Cinema Experimental, com o objetivo de produzir curtas-metragens. É assim que surgem filmes como “O Milagre de Lourdes” de Carlos Alberto Prates Correia, “Aleluia” de Schubert Magalhães e “Interregno” de Flávio Werneck. Em paralelo, começa a funcionar a Escola de Cinema da Universidade Católica, sob a direção do Padre Edeimar Massote, que irá revelar quadros importantes (fotógrafos, roteiristas, diretores) para o cinema mineiro, que também se lançarão ao curta-metragem. Toda essa produção irá participar, com premiações, do Festival de Cinema JB-Mesbla, no Rio de Janeiro, que exibirá, entre outros, “O Bem Aventurado” de Neville d’Almeida, “Joãozinho e Maria” de Márcio Borges, “Morte Branca” de José Américo Ribeiro e “Nosso Fausto” de Jorge Dantas.


E surgem os primeiros longas-metragens dessa nova safra: “Os Marginais”, com dois episódios dirigidos por Carlos Alberto Prates Correia e Moisés Kendler, e “A Vida Provisória” de Maurício Gomes Leite, que antes havia estreado com o curta “O Velho e o Novo”, sobre Otto Maria Carpeaux.


Durante o primeiro e único Festival de Cinema de Belo Horizonte, realizado em 1968, o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais – BDMG cria o Fundo Pró-Cinema, que resulta em três filmes: “Crioulo Doido” de Carlos Alberto Prates Correia, “Balada dos Infiéis” de Geraldo Santos Pereira e “O Homem do Corpo Fechado” de Schubert Magalhães, aos quais vêm se somar “Tostão, a Fera de Ouro” de Ricardo Gomes Leite e Paulo Laender, “Perdidos e Malditos” de Geraldo Veloso, ”Sagrada Família” de Sylvio Lanna e “Bandalheira Infernal” de José Sette.


O próximo passo é o convênio Embrafilme – Governo de Minas Gerais, através do qual são feitos “O Bandido Antônio Dó” e “Dois Homens para Matar’ de Paulo Leite Soares, o meu “Idolatrada”, “Ela e os Homens” de Schubert Magalhães e “A Dança dos Bonecos” de Helvécio Ratton.


Com produção contínua, os longas-metragens vão surgindo, uns após os outros. De “O Menino Maluquinho” e “Batismo de Sangue” de Helvécio Ratton às obras da turma de Contagem, passando por “O Circo das Qualidades Humanas” (Geraldo Veloso, Jorge Moreno, Milton Alencar Jr. e eu) e “O General” (Fábio Carvalho), Minas Gerais se apresenta atualmente como um dos principais polos brasileiros de produção.