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Loucuras Hitchcockianas

O filme Os pássaros tem a direção e a produção assinadas por Alfred Hitchcock. Lançado em 28 de março de 1963, o filme é uma adaptação do roteirista Evan Hunter da novela The Birds de autoria da escritora inglesa Daphnes du Maurier. Antes de Hitchcock levar a novela de Daphnes du Maurier para o cinema, tentaram adaptá-la para o rádio e a televisão, mas fracassaram. Hitchcock quando a leu, não cogitou em nenhum momento desistir da empreitada, apesar das possíveis dificuldades técnicas que cogitava enfrentar. O filme tem como protagonistas os atores Tippi Hedren e Rod Taylon, além de Jessica Tandy, Suzanne Pleshette e Verônica Cartwright. O filme Os pássaros foi difícil de ser realizado em razão de sua complexidade técnica e seus efeitos especiais produzidos por milhares de pássaros vivos e treinados. Ademais, nos filmes de longa metragem de Hollywood, com cerca duas horas de duração, são usados entre 400 e 700 planos de filmagem. Nesse filme, Hitchcock usou 1.500 planos diferentes.


Em uma célebre entrevista que François Truffaut faz com Hitchcock, em 1967[1], eles comentam que, desde 1945, a bomba atômica é uma ameaça que pode ocasionar o fim do mundo. Assim, é inesperado ver os pássaros substituir a bomba atômica, em um cenário apocalíptico. O filme converge para história de que pássaros inofensivos se tornam agressivos e brutais em uma série de ataques repentinos e inexplicáveis. Hitchcock alega que não há uma causa específica dos pássaros atacarem os humanos. De acordo com Truffaut, a história é bem construída e o princípio da narrativa concerne às três unidades da tragédia clássica: a unidade de lugar, a unidade de tempo e a unidade de ação. Assim, toda a ação se passa em dois dias, em Bodega Bay, e os pássaros se tornam cada vez mais malignos[2].


Em Os pássaros, Hitchcock produz um filme um tanto diferente de seus anteriores, visto que migra do gênero do suspense para um misto de terror e suspense. Em síntese, a diferença entre o suspense e o terror é que, no primeiro, há uma expectativa de risco do qual o espectador possui todos dados, e por isso mesmo tem o que temer[3]; e no segundo, ele não sabe o que vai acontecer e é pego de surpresa, provocando o susto e o medo. Assim, Os pássaros se desenrola como se o público jamais pudesse adivinhar o que vem na cena seguinte. Não há antecipação, apenas se pressente que os ataques vão ficando cada vez mais intensos[4].


Hitchcock declara que ficou bastante afetado durante as filmagens. Assim, de um caráter organizado, frio, sistemático e metódico, Hitchcock teria se deixado levar pela paixão e se tornado afetado, inquieto, atordoado e afeito às improvisações. Hitchcock relata a Truffaut: “Gostaria de lhe explicar as emoções que senti. Sempre me gabo de jamais olhar o roteiro enquanto filmo. Conheço o filme de cor. Sempre tive medo de improvisar no set de filmagem porque ali, se acaso tivermos tempo de ter ideias, não teremos tempo de examinar as suas qualidades. Existem operários, maquinistas, eletricistas e sou muito escrupuloso com despesas inúteis. Não consigo imitar diretores que fazem a equipe esperar, enquanto eles se sentam para refletir. Eu jamais faria isso”. Então, o que se passou nos bastidores das filmagens e o que perturbou Hitchcock? A minha hipótese é que o feminino de Tippi Hedren teria abalado Hitchcock a ponto de ele, durante as filmagens, abandonar completamente o seu estilo de dirigir.


Hitchcock ainda declara: “nesse filme fiquei muito emocionado, agitado, o que é raro, pois em geral brinco muito nas filmagens. À noite quando me encontrava com minha mulher, estava agitado, atordoado e emocionado. Alguma coisa de novíssimo aconteceu comigo. Essa crise que atravessei despertou em mim algo novo do ponto de vista da criação. Passei a estudar o roteiro, lancei-me em improvisações”. Hitchcock faz uso então das improvisações e aproveita as contingências que surgem.


Continua Hitchcock: “toda a cena de ataque exterior à casa pelos pássaros que não vemos foi improvisada no set de filmagem. Isso nunca tinha acontecido, mas não me demorei muito para decidir-me e desenhei depressa os diferentes movimentos dos personagens na sala. Resolvi que a família se deslocaria desesperada para buscar refúgio. Ora, mas não havia refúgio. Eu mandava que elas fizessem vários movimentos em direções contraditórias, para que se deslocassem como bichos, como ratos que fogem para todos os cantos. Melanie está cada vez mais encurralada contra a parede. Ela recua, se afasta, mas não sabe nem mesmo do que se afasta. Tudo isso veio muito rápido em razão do estado emocional em que me encontrava”.


Hitchcock diz: “parece que tenho a reputação de preferir atrizes louras em meus filmes. E agora, em Os pássaros, estou introduzindo outra jovem que por acaso, é loura – a srta Tippi Hedern. Uma mulher elegante jamais deixará de surpreender”[5].


Em uma manhã de outono de 1961, Hitchcock e Alma sua esposa estavam na cozinha tomando café e assistindo ao noticiário, quando foi exibido um comercial estrelado por Nathalie Hedren: uma modelo fotogênica, olhos brilhantes, sorriso natural e uma postura elegante na frente das câmeras. Nathalie nasceu em 1930, no seio de uma família de classe média baixa afetada pela grande depressão de 1929. Seu pai lhe dera o apelido de Tupsa que é um adjetivo sueco que significa “adorável”. Logo, o apelido se deslocou para Tippi e permaneceu assim. Tippi estava realizada, pois trabalhava em Nova York como modelo na famosa agência Ford de modelos e jamais pensara em se tornar uma atriz, tampouco uma estrela. Ela se casara em 1956 e 1957, tivera uma filha, Melanie Griffith, que se tornou mais tarde atriz de cinema. Mas, em 1961, o casal se divorcia e Tippi se muda para Los Angeles.


A partir do comercial, Hitchcock se interessa subitamente pela garota loura, elegante e sensual. Quando chegou ao seu escritório, pediu aos seus agentes que encontrassem aquela moça e a trouxesse até ele. Os executivos da MCA ofereceram a Tippi uma boa soma de dólares para ela assinar um contrato com um diretor cujo nome estava em segredo. Como ela sabia que os negócios da moda perdiam o interesse com as mulheres acima dos 30 anos, achou que seria “uma oportunidade maravilhosa”. Na semana seguinte, foi levada até Hitchcock. Ele estava satisfeito e sentia que tinha feito um ótimo negócio. Hitchcock se encantou com Tippi. Mais tarde, Robert Boyle, diretor de arte da equipe de Hitchcock disse: “Foi amor à primeira vista!” Hitchcock disse que propôs o contrato com Tippi porque ela tinha uma beleza clássica. Isso não existe mais no cinema. Grace Kelly foi a última”.


Durante quatro meses, Hitchcock tratou de educá-la diariamente, ensinou-lhe tudo que sabia sobre etiqueta, gastronomia, vinhos, cultura e sociedade. Oferecia-lhe presentes, joias, broches de ouro, colares de pérolas, roupas finas e um casaco de mink para que ela usasse durante as filmagens. Apesar de Hitchcock presentear Tippi com generosidade, era a Universal que pagava os bens que lhe eram ofertados. Tippi estava recebendo anos de educação cinematográfica em poucos meses. Raramente, Hitchcock se dirigia aos outros atores, permanecendo distante deles. De modo incomum, ele discutia com ela detalhes do roteiro, as motivações de sua personagem e estava sempre interessado em saber a sua opinião. Não cansava de elogiar Tippi com a impressa: “Dê uma olhada nessa garota, ela é notável, será uma grande atriz. Eu lhe dei o papel principal de grande importância. Tippi tem o sentido de tempo mais rápido, mais fluência urbana e mais humor. Em suas cenas se mostra com confiança lépida, tem um belo modo de levantar a cabeça, tem uma petulância no gesto, memoriza com facilidade suas falas e suas expressões são melhores. Spoto acredita que Hitchcock quando diz das qualidades de Tippi, a compara com Gracie Kelly[6].


Porém, a escolha de Hitchcock estava longe de ser uma unanimidade. Os diretores do estúdio Universal Pictures não apoiaram Hitchcock em sua escolha porque Tippi era inexperiente. Perguntavam a Hitchcock: “o que você está fazendo, está louco?”[7] Hitchcock era um diretor de sucesso e havia muito dinheiro em jogo e o filme não poderia fracassar. Então, Tippi estava sob grande pressão e o grande peso da responsabilidade de não desapontar a Universal, tampouco Hitchcock.


Tippi diz: “Hitchcock estava desenvolvendo uma obsessão por mim e eu comecei a me sentir muito desconfortável, porque não tinha nenhum controle sobre ele”. Hitchcock começou a observá-la constantemente, vigiá-la, queria saber com quem ela conversava, com quem falava no telefone. “Ele queria saber o que eu comia, bebia e vestia”. Passou a ficar enciumado com o par romântico do filme e não deixava que Tippi conversasse com Rod Taylor fora das cenas. Proibiu que ela aceitasse carona dele. Segundo Tippi, “todos os dias encontrava no seu camarim, flores, champagne caras, presente e bilhetes escritos a mão, caracterizados por um sentimento juvenil”.


Hitchcock estava terrivelmente apaixonado, mas Tippi se sentia perseguida por ele. Enfim, de acordo com Lacan, a relação sexual não existe. A não relação sexual desse casal improvável foi marcado por um desencontro dramático. Hitchcock, abalado pelo feminino, passou a ter crises de ciúmes. O amor possessivo e incompreendido de Hitchcock por Tippi chegava a ela com a conotação de uma relação abusiva de poder.


Tippi passou a evitá-lo sem sucesso. Hitchcock era um famoso e genial diretor de Hollywood e Tippi Hedren, uma atriz iniciante, desconhecida e sem experiência. Na época, as acusações de assédio eram histórias que não eram levadas em conta. Hitchcock contava-lhe piadas de cunho sexual, deixando Tippi embaraçada e nervosa. Agora, depois de décadas submetidas à defesa da sublimação e do recalque, diante do feminino, as forças pulsionais eróticas estavam encontrando vazão e Hitchcock estava passando dos limites[8]. A situação se agravou entre os dois e Alma, esposa de Hitchcock, tentou interferir. “Alma era como uma mãe para Hitchcock, ela cuidava dele, o protegia”, disse Tippi. Com efeito, Alma como uma mãe permissiva, perdoava todas as transgressões do filho. Ela disse a Tippi: “Oh Tippi querida”..., Alma me disse com uma preocupação real em sua voz: ...“eu sinto muito que você tenha que passar por isso. Eu sinto tanto..,” Alma tinha influência sobre o marido e sabia muito bem o que se passava, mas por uma espécie de conveniência involuntária, por mais insensata e inadequada que fosse, ela não queria frustrá-lo[9].


Os personagens de Hitchcock continuam a espelhar seus temores, desejos e fantasias. Em certo momento, Mitch discute com Melanie sobre o amor materno. Mitch diz que ela é uma criança que necessita de cuidados maternos. Melanie fica indignada e diz que não é sua mãe porque foi abandonada aos 11 anos, quando ela fugiu com o amante. Ela replica: e você, sabe o que é amor de mãe? Ele diz que sim e que é melhor ser amado do que abandonado. Com efeito, Lídia, mãe de Mitch tinha medo de ser abandonada. Tinha medo de perder Mitch para outra mulher.


Robert Boyle, amigo e diretor de arte de Hitchcock, disse que parecia que ele tinha medo das louras elegantes. Ele se tornava compulsivo, apaixonado e amedrontado. Será que elas encarnavam sua mãe, será que encarnavam o feminino para ele ou será que ele se identificava com essas magnificas mulheres? Hitchcock também se apaixonou por Ingrid Bergam e Gracie Kelly, mas ambas não levaram a sério suas investidas, deram pouca consistência aos seus assédios juvenis e neutralizaram suas piadas sujas, de modo que permaneceram suas amigas até sua morte.


Hitchcock confessou a Boyle “Tenho todos os sentimentos de todas as pessoas presas em uma armadura de gordura”! Segundo Boyle, “Hitchcock considerava que não era atraente fisicamente, mas ao mesmo tempo, reconhecia que tinha os mesmos desejos que os outros sentiam e se frustrava com frequência pelo que sentia ser uma dificuldade, se não uma impossibilidade, de experimentar o amor recíproco”.


Tippi levou Hitchcock a sério demais e passou a evitá-lo e Hitchcock passou a se sentir rejeitado, despertando-lhe mágoa, ressentimento e desejo de vingança. O diretor que antes protegia a atriz de todos, passou a expô-la, sem dublê, a toda sorte de cenas de perigo. Na última semana de filmagem, Tippi fica apavorada e traumatizada, pois sua personagem Melanie sobe as escadas e entra no sótão da casa, quando é terrivelmente atacada por centenas de pássaros vivos – gaivotas, corvos, pombos. No roteiro original, os pássaros seriam mecânicos, mas Hitchcock, para expor Tippi, os troca por pássaros vivos.


Os pássaros agitados eram arremessados de encontro ao corpo de Tippi, de modo que eles a atacavam violentamente. Hitchcock só aparecia para dizer ação, depois voltava de seu camarim para dizer corta. A cena é repetida por várias vezes, durante quase uma semana. Era como se ele estivesse constrangido, amedrontado e embaraçado de sua intenção sádica ao ver sua amada estrela sofrer[10].


Não há precedente no cinema sobre um diretor que tenha feito um ator ou atriz passar por uma situação constrangedora como essa. Depois de uma semana gravando a mesma cena, a situação chegou a um ponto crítico. Tippi narra que havia uma gaivota amarrada com nylon em seu braço, de modo que ela pulou de seu ombro para o seu rosto e lhe bicou na pálpebra inferior do olho. Tippi entra em colapso, cai em choque e desmaia. A cena foi interrompida e ela foi levada ao seu camarim para atendimento médico que lhe prescreveu um repouso absoluto. Hitchcock protestou dizendo que precisava dela para filmar os últimos planos. “Você está louco, você quer matá-la?”, perguntou o médico ao diretor.


Depois que as filmagens acabaram, as relações entre Tippi e Hitchcock ficaram deterioradas, mas ela ficara presa a ele por exigência do contrato. Assim, Tippi teve que protagonizar mais um filme, Marnie: confissões de uma ladra. Hitchcock continuou a assediar Tippi. “Ele sempre queria tomar um champagne ou um vinho comigo no final da filmagem e eu o recusava”, disse Tippi.


Segundo Robert Boyle, “Hitchcock estava sempre tentando colocar seus sentimentos pessoais na tela. Acho que era isso que ele estava fazendo em Marnie. Hitchcock estava fazendo por meio de Tippi e seu cinema, a exploração de seus sentimentos e seu comportamento compulsivo”. Segundo Boyle, o filme Marnie: confissões de uma ladra se trata do desejo assombrado de um homem obsessivo compulsivo que quer controlar uma mulher que o rejeita. Apenas sob chantagem que ela aceita casar-se com ele. Marnie diz a Mark: “Você não me ama. Eu sou apenas algo que você pegou. Você acha que eu sou um animal que você capturou."


Hitchcock nos conta, de certa vez, uma fantasia sua de um dia fazer uma brincadeira assim: ele convidaria alguns amigos para jantar e junto deles uma atriz desconhecida que se passasse por sua tia. Ele combinaria com ela que, a certa altura, ela perguntaria a Hitchcock, na frente dos convidados, se ela poderia beber alguma coisa e ele responderia que não. “Você sabe muito bem que o álcool não lhe faz bem e, portanto, você não pode beber”. Então, a falsa tia se afastaria triste e se sentaria em outra mesa. Todos ficariam muito constrangidos e encabulados. “Após certo tempo – discorre Hitchcock -, ela voltaria em minha direção em súplicas e quase chorando pedindo para beber e eu diria bem alto, não, não, não adianta me olhar assim, sua atitude constrange todo mundo! E minha falsa tia começaria a chorar baixinho, eu finalmente gritaria com ela: você está estragando nossa noite, volte para o seu quarto”. Embora quisesse, jamais fiz essa brincadeira com medo de que alguém batesse em mim.[11]


Curiosamente, Hitchcock, como uma criança, deixa suas fantasias, seus traumas e desejos se expressassem em cenas adaptadas para o cinema ou em suas brincadeiras. Essa cena fantasiada por Hitchcock coloca em jogo a sua pulsão oral, com seu desejo, sua satisfação, sua privação e sua frustação. Hitchcock é ao mesmo tempo sujeito e objeto em sua fantasia, pois ele é o anfitrião que priva a tia de sua demanda oral, provocando-lhe frustração e, finalmente, ele é também a sua falsa tia frustrada. Essa cena nos evoca talvez uma possível situação infantil em que a criança, aos prantos, é repreendida pelos pais: “você está estragando a noite, vindo pedir para mamar! Volte para o seu quarto agora!” Hitchcock diz que não levou a brincadeira adiante por medo de apanhar de alguém. Essa enunciação denota sua condição infantil masoquista de apanhar dos pais, se não voltasse para o seu quarto. Em certa entrevista pediram que enumerasse seus grandes prazeres da vida. Hitchcock disse: as coisas que mais me deixam feliz são comer, beber e dormir. Bebo como um peixe – você há viu que cara vermelha eu tenho? Eu podia morrer comendo”[12].

Nas entrevistas com Truffaut, Hitchcock relata um episódio, dessa vez real, um tanto parecido com o descrito acima que mostra algo do gozo do sujeito. No aniversário de sua esposa Alma, ele contrata uma atriz desconhecida para participar de um jantar oferecido para doze pessoas. A atriz se passa por uma senhora de certa idade, aristocrática, alinhadíssima e riquíssima e Hitchcock lhe dá o lugar de honra na mesa. Mas, conforme o combinado, Hitchcock passa a ignorá-la completamente, durante a recepção. Alma e seus amigos, não sabiam da gag. Então, quando perguntavam à senhora quem era ela, ela dizia que era a convidada de honra de Hitchcock, mas quando se dirigiam a ele, ele dizia que não a conhecia, deixando os convidados em uma situação constrangedora[13]. Dessa vez, a fantasia foi colocada em prática - uma fantasia masoquista em que Hitchcock se coloca no lugar de sua majestade o bebê, contudo, abandonado pelo Outro. Pode-se dizer que o que está em jogo no seu núcleo de gozo é o de se fazer rejeitar, se fazer abandonar.


A realização do filme Marnie: confissões de uma ladra foi desgastante para ambos, pois quando maior as investidas de Hitchcock, maior era a rejeição por parte de Tippi[14]. Hitchcock delirava que Tippi poderia ser sua e que de algum modo deixaria Alma para ter uma vida nova com sua estrela. Tippi alega que Hitchcock “era narcisista e presunçoso, já que ele tinha certeza de que eu também estava apaixonada por ele”[15].


Segundo Mark, no filme Marnie, ele dizia: “deve haver alguma coisa errada com uma moça que não me quer”. Esse é a questão de Hitchcock com sua estrela que ele deixa transparecer no filme.[16] Em março de 1964, no final das filmagens de Marnie, o drama termina, quando Hitchcock convida Tippi para ir ao seu escritório e lhe diz que “esperava que eu estivesse disponível e acessível sexualmente para ele quando ele desejasse”. “Depois de três anos tentando colaborar, me cansei, e disse: chega, era o fim”. Tippi grita com ele, “eu não posso continuar com isso, não quero ficar mais perto de você, eu não aguento mais um dia, quero o fim do meu contrato”. Hitchcock ficou surpreso, se sentiu rejeitado e passou a ameaçá-la que iria destruir a carreira dela. Você jamais filmará de novo. Hitchcock levou adiante a ameaça de que ela não filmaria de novo.


Assim, O filme Marnie foi o ponto de inflexão em sua carreira de grande gênio como cineasta que perdeu todo o controle sobre si mesmo e marcou o início do fim de sua arte[17]. Anos depois, Tippi diz que “Hitchcock nunca me amou, ele era obcecado por mim. Quando você ama alguém, você não o amedronta, não o enoja, ou quer feri-lo”. Você quer que ele venha até você, não que ele se sinta rechaçado.”


Presa ao seu contrato, ele deixou Tippi Hedren na geladeira por muito tempo. Uma lista enorme de diretores quiz filmar com ela e, diante do pedido, sua resposta invariável era: “ela não está disponível”. Finalmente, Hitchcock cedeu aos apelos de seu amigo Charles Chaplin e liberou Tippi para filmar. Logo depois, Hitchcock concordou em cancelar o contrato de Tippi. Segundo Truffaut, Hitchcock jamais fora o mesmo depois dessa experiência com o feminino. Apesar das tentativas de Hitchcock arruinar a carreira de Tippi, durante dois anos seguidos, ela foi adiante e filmou para o cinema e para a televisão. Em 2007, Tippi Hedren disse com compaixão, se referindo a Hitchcock: “Esse pobre homem estava desesperado por algo que jamais teve em toda sua vida”.


Hitchcock oscila com seu objeto, visto que primeiro ele o coloca na categoria de um ideal, de uma perfeição para depois submetê-lo à condição de dejeto. Hitchcock ama o seu objeto com as forças do supereu, em sua vertente masoquista do imperativo categórico e em sua vertente sádica do imperativo do gozo. Pode-se dizer que ele experimentou os limites da sublimação e os ultrapassou, ocasionando um gozo concernido à pulsão de morte. Assim, por detrás do rosto de Eros, emerge a face de Tânatos, em sua vertente da pulsão de morte.


Freud destaca que a alegria do artista em criar, em dar corpo as suas fantasias, possui uma qualidade especial que é a de atingir uma satisfação mais refinada e mais alta. Contudo, comparadas com as satisfações primitivas das pulsões, elas se revelam breves e tênues, pois elas não convulsionam o corpo e esse método não proporciona proteção contra o sofrimento[18]. À frente das satisfações obtidas por meio da fantasia, ergue-se a fruição das obras de arte, fruição que, por intermédio do artista, é tornada acessível inclusive àqueles que não são criadores[19].


Hitchcock transformava seus sentimentos mais profundos, pois ele colocava em cena suas fantasias mais secretas de desejos subterrâneos, planos maquiavélicos, pactos sinistros, fobias, voyerismo, exibicionismo, sadismo, masoquismo, torturas psicológicas, assassinatos, segredos abjetos, trapaças, entre outras. Elementos repulsivos em nós que rejeitamos e que adoramos e nos satisfazemos em ver no outro.


Freud destaca que na busca da felicidade, na sublimação e na prevenção do sofrimento, nos resta sempre uma parcela de natureza inconquistável que se configura como nossa própria constituição de nossa natureza psíquica.[20] Vale ressaltar que existem limites para sublimação diante das forças pulsionais do gozo. Portanto, a partir dos relatos dos desejos e fantasias de Hitchcock nem tudo de sua pulsão oral, sua pulsão escópica e sua pulsão sadomasoquista estavam sublimadas. Enfim, a arte de Hitchcock era formada por um padrão eterno de descontentamento, do qual procurava refúgio na cozinha e no bar[21]. Seu abatimento no seu ocaso, vinha do fato de parecer desejar romance e amizade, mas não tinha talento para ele, exceto para sua vida de fantasia expressa em sua pulsão escópica e nesse ponto, ele deixou marcas indeléveis de seu sintoma em sua magnifica obra de arte.


Hitchcock marca a idade de ouro do cinema e de acordo com Truffaut, ele está na categoria dos gênios inquietos tais como Kafka, Dostoievski e Edgard Alan Poe. Seus filmes nem sempre apaziguadores, mas enriquecedores e de uma lucidez assustadora, se definem como uma quase identidade entre sua personalidade, seus sintomas, sua obra e o próprio cinema[22]. Enfim, Hitchcock não alivia os nossos sofrimentos, pois para ele já foi difícil viver. Mas, ele nos ajuda a nos conhecer melhor, que é a finalidade última de toda obra de arte.

 

[1] TRUFFAUT/HITCHCOCK, Entrevista, 1983, São Paulo: Companhia das letras, 2013, p. 16.

[2] Idem, p. 292.

[3] Idem, p. 17.

[4] Idem, p. 290.

[5] SPOTO, D., Obsessão, In: Fascinado pela beleza: Alfred Hitchcock e suas atrizes, São Paulo: Larousse, 2008, p. 256

[6] Idem, p. 262.

[7] Idem, p. 260.

[8] Idem, p. 264.

[9] Idem, p. 265.

[10] Idem.

[11] Idem, p. 301.

[12] Idem, p. 291.

[13] Idem, p. 301.

[14] Idem, p. 274.

[15] Idem, p. 281.

[16] Idem, p. 282.

[17] Idem, p. 283.

[18] FREUD, S., O mal-estar na civilização, In: Edição standard das obras completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, 1980, p. 98.

[19] Idem., p. 100.

[20] Idem., p. 105.

[21] SPOTO, D., Obsessão, In: Fascinado pela beleza: Alfred Hitchcock e suas atrizes, São Paulo: Larousse, 2008, p. 155.

[22] TRUFFAUT/HITCHCOCK, Entrevista, 1983, São Paulo: Companhia das letras, 2013, p. 31.

 

Este ensaio foi escrito por Sergio de Campos, psicanalista, AME da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise, para a obra "Os Pássaros" (The Birds, Alfred Hitchcock, EUA, 1963), na faixa de programação Cinema & Psicanálise, no dia 05 de Maio de 2023.

 

Sobre o autor

Sergio de Campos é psicanalista, AME da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise.



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