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LC Barreto e a dramaturgia. Um cinema de ações e reações

A produtora LC Barreto alcança a marca de 60 anos de carreira em 2023. Em uma trajetória que permeia a história do cinema brasileiro, por entre o Cinema Novo e o período da Retomada em diante, a organização é sem sombra de dúvidas uma catalisadora da sétima arte no país a partir da segunda metade do século passado. Encabeçada pelo casal Luiz Carlos Barreto e Lucy Barreto, a produtora enfileira glórias e marcas históricas, dentre as quais algumas que compartilham sucessos e inspirações com o estado de Minas Gerais.


A LC Barreto é reconhecida por ter realizado produções do sul ao norte do Brasil, com cineastas renomados - como Nelson Pereira dos Santos e Carlos Diegues - e herdeiros do talento cinematográfico da família, como os filhos Bruno e Fábio Barreto. A busca por uma gama ampliada de gêneros e abordagens em seus filmes sempre foi uma constante da produtora, podendo até ser considerada um método de sucesso nas bilheterias. Adaptações literárias eram seguidas de adaptações teatrais, comédias seguidas de documentários. Mas foi em Minas, na década de 1960, onde a produtora teve alguns de seus mais marcantes encontros, representados em três dramas.


O primeiro é “A Hora e Vez de Augusto Matraga” (1965), dirigido por Roberto Santos. Filmado no interior do estado, o longa é uma adaptação do conto homônimo de João Guimarães Rosa, que retrata desavenças no interior sertanejo mineiro. O filme é uma das primeiras adaptações emplacadas pela produtora, e confirma a estratégia de projetar nas telas de cinema histórias clássicas da literatura nacional.


O segundo filme é “O Padre e a Moça" (1966), dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, notório cinemanovista. A parceria de Luiz Carlos com Joaquim Pedro já havia acontecido com “Garrincha, Alegria do Povo” (1962). O longa de 1966 foi filmado no município de São Gonçalo do Rio das Pedras, e em localidades como a Serra do Espinhaço e a Gruta de Maquiné. Inspirado no poema “O Padre, A Moça”, de Carlos Drummond de Andrade, o drama é protagonizado pela dupla Paulo José e Helena Ignez. A jornada existencial de liberdade, inspirada abertamente no cinema de Robert Bresson, é certeira ao encontrar na geografia mineira sua clausura e sequidão.


Uma curiosidade muito significativa sobre a produção das obras é que suas equipes contaram com alunos de uma recente escola de cinema fundada na capital Belo Horizonte, a Escola Superior de Cinema da Universidade Católica de Minas Gerais, criada em 1962. Ambos os realizadores, Joaquim Pedro e Roberto Santos, vieram à capital mineira em busca de interessados capacitados para o set de filmagem, como conta José Américo Ribeiro:

Outro acontecimento, e não menos importante, foi o convite feito por Roberto Santos e Joaquim Pedro de Andrade para que alguns alunos da Escola participassem da equipe de produção de dois longa-metragens a serem rodados em Minas Gerais: A Hora e Vez de Augusto Matraga e O Padre e a Moça. Do primeiro, fizeram parte os alunos Harley Carneiro e Guaracy Rodrigues e do segundo, Flávio Werneck. Harley disse que quando voltou para a Escola sentiu que ela estava muito aérea, muito teórica e fora da realidade. (RIBEIRO, 1997, p. 172).


Os três alunos citados, tiveram uma intensa participação no cinema mineiro e nacional. Harley Carneiro se tornou diretor de fotografia, participando de filmes diversos pelo estado. Flávio Werneck teve curta carreira como diretor, tendo como maior destaque o curta-metragem “Interregno” (1966). E Guaracy Rodrigues, conhecido pelo apelido de Guará, foi especial ator de grandes diretores como Rogério Sganzerla e Neville D’Almeida.


Se os filmes acima citados partem de outras obras como inspiração, é na urgência do tempo presente que “A Vida Provisória” (1968), de Maurício Gomes Leite, é produzido. Um filme sobre a paranóia política e sua atmosfera de ameaça que cobria o país, filmado entre Brasília, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Novamente protagonizado por Paulo José, a obra foi censurada pela Ditadura Militar, e é capaz de sintetizar a abertura da produtora para obras de cunho reativo e contestatório, mesmo em momentos de repressão constante.


Mesmo que essa seja apenas uma relação dentre as tantas possíveis dentro da filmografia da LC Barreto, uma questão faz o diferencial da produtora carioca. A dramaturgia. Dos filmes de maior sucesso, todos têm em comum um largo apreço pela rigidez da linguagem entre as escolhas de prosseguimento narrativo. “Dona Flor e seus dois Maridos” (1976), de Bruno Barreto, é um exemplo claro disso.


Inspirado no texto homônimo de Jorge Amado, o filme traz consigo uma narrativa em revés, que começa pelo fim, volta ao começo, e em seguida salta para o futuro novamente. Mesmo sendo o terceiro longa, o novato Bruno já demonstrava apreço pelo desafio, tanto moral, quanto estético. O texto é bastante agressivo, com a figura de Florípedes - interpretada por Sônia Braga - , e tem em Waldomiro - Interpretado por José Wilker - , uma figura nada exemplar, explorando suas aparições praticamente nuas depois de uma noite de apostas e bebedeira. O impasse moral é provocado pela própria Flor, mantendo contato com o espírito de Waldomiro após sua morte. Os dois nunca se entenderam, no entanto a ligação viria pela carne. Teodoro, o novo marido, é tudo que ex não foi, e por ele Flor sente tudo que não sentia por “Wadinho”, um amor que se aproxima do paternal.


Mesmo com núcleos rocambolescos - no melhor sentido da palavra - , o filme em momento nenhum larga qualquer dos personagens. Todos são partícipes ativos, desde Flor, à desconhecida Dionísia, com a qual a protagonista decide confrontar um caso de Wadinho. O entrelaçamento é invejável com o final memorável de Wilker nu em praça pública com Sônia Braga e Mauro Mendonça sem qualquer tipo de vergonha.


Passando da adaptação que se tornou o maior sucesso da produtora - e estranhamente, teve um início de produção dificultado por recusas de cineastas, segundo a própria Lucy Barreto - , podemos seguir para um projeto intensamente atravessado pelo texto dramatúrgico, sendo um longa baseado em uma peça de Nelson Rodrigues. O Beijo no Asfalto.


Seguindo o filme Amor Bandido (1979), a aposta agora era um texto de Nelson, e talvez, provocar uma transformação no cinema policial nacional. Um filme sobre um Homem, do qual seu último pedido é um beijo de outro homem em público, pouco antes do fim da ditadura militar. Eram os anos 80, a recém começada década viria com a ambição de colocar em tela o risco das relações homoafetivas enquanto execrava de maneira visceral a dinâmica entre polícia e mídia, mídia e público, família e sociedade, e as hipocrisias que a farda, a caneta e os “bons costumes” carregam.


Amado Pinheiro, o fotógrafo que acompanha o fatídico momento que perseguiria a vida de Arandir, vivido por Ney Latorraca, é a personificação do “tabloidismo” inglês. Em conluio com a polícia, Amado espalha a notícia, e juntamente com Cunha, acusam Arandir de homossexualidade. Bruno e sua equipe escolhem iniciar com o acidente e os olhares dos populares, é a cidade e a tragédia se encarando frente a frente até o fim do filme, mas ainda assim nada de beijo. A suspensão sendo marca do diretor é intensamente mantida, Amado chega a delegacia e anuncia a “bomba”, sem falar do beijo por um bom tempo. A dramaturgia segura quem não conhece a história sempre que pôde. Aprígio, interpretado por Tarcísio Meira, pai da mulher de Arandir, chega em casa e não anuncia o fato à família, o beijo é algo a se esconder.


O longa segue, além de uma pesada dramaturgia - se inspirando no talvez, maior dramaturgo do país - , signos do gênero policial, em que a investigação só não é sobre um “crime” com vítima, mas à moral ditada pelo Estado. Amado e Cunha, (mídia e Estado), perseguem os detalhes do caso, um para vender jornais e o outro para restaurar a moral perdida na corporação. O caos gerado pelo beijo nunca é sobre o ato em si, mas o que se pensa sobre o ato.


Aprígio, é o que coroa o texto. O homem em questão sendo, no filme todo, a figura que “asseguraria” sua filha de um marido louco e gay, na verdade sente desejo pelo próprio Arandir. O ciúmes daqueles que juram proteger os costumes seria na verdade amor reprimido? A cena de tortura de Selminha é das mais tensas do nosso cinema, uma mulher torturada sem nenhum motivo aparente nos dias de hoje ou em qualquer época, um crime que mesmo naquela realidade sequer teria qualquer tipo de ligação. É um amontoado de fatos, e todos eles remetem ao Brasil, o daquela época e o atual, sendo um projeto que assim como seus antecessores na LC Barreto, transpira domínio técnico e prático do método cinematográfico.

 

REFERÊNCIAS

BARRETO, Lucy. Adilson Marcelino. Mulheres do Cinema Brasileiro. Disponível em: https://www.mulheresdocinemabrasileiro.com.br/site/mulheres/visualiza/473/Lucy-Barreto/4. Acesso em: 18 ago. 2023.


BARRETO, Luiz Carlos. Elenco Brasileiro. Disponível em:


Produções Cinematográficas L. C. Barreto Limitada. Diretório Brasil de Arquivos.

Disponível em:


RIBEIRO, José Américo. O cinema em Belo Horizonte: do cineclubismo à produção cinematográfica na década de 60. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1997.

 

Este ensaio foi escrito por Gabriel Matavel e Rodrigo Sampaio, editores e criadores do podcast Cinema em Transe, para a filmografia da produtora brasileira "LC Barreto", em complementação ao conteúdo exibido durante a mostra "LC BARRETO: 60 anos filmando o Brasil".



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