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Guerra santa, guerreiros cegos

por Gabriel Araújo


Ainda no início de “Fé e Fúria”, documentário de Marcos Pimentel que investiga a intolerância religiosa contra religiões de matriz africana em comunidades de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro, o filme apresenta um depoimento emocionado de Pai Bruno, um pai de santo que narra o que sentiu ao ter seu terreiro vandalizado e os santos do espaço destruídos. Ao fim de sua fala, a câmera de Matheus Rocha, diretor de fotografia do longa, enfoca no que parece ser uma imagem de Exu, com seus chifres, tridente e pontas de ferro. O plano então se desloca para cima, num movimento vertical, até encontrar, no alto, o símbolo do suntuoso prédio da Igreja Universal.


Embora esse seja um dos poucos planos narrativos do longa, que, por sua vez, centra boa parte de seu discurso em entrevistas de quadro fixo, ele sintetiza com precisão o mote apresentado por Marcos Pimentel. A imagem de uma estrutura gigante e verticalizada que olha, por cima, para um pequeno símbolo de uma religião de matriz africana representa a principal metonímia de “Fé e Fúria”, evidenciando não apenas uma rivalidade entre o neopentecostalismo e o candomblé e a umbanda, por exemplo, como a gritante diferença relacionada à correlação de forças de um sobre os outros. “É como se eu visse alguém tentando pisar na minha fé”, diz o entrevistado, nessa mesma cena. “[Mas] minha fé é muito maior do que qualquer pisada”, ele complementa.


O signo da guerra abarca as entrevistas do longa documentário, estando presente até mesmo nas divisões capitulares do filme – “Guera”, “Guerreiros”, “Armas”, “Outras Armas”, por exemplo. A comparação não é exagerada. Apenas em 2022, foram cerca de 1,2 mil denúncias de intolerância religiosa registradas no Brasil; uma média, segundo o Disque 100, de três por dia. Filmado entre agosto de 2016 e julho de 2018, “Fé e Fúria” acaba ressoando a escalada dessa violência, investigando as histórias individuais e as complexidades que podem ser depreendidas desse número absoluto, especialmente num momento de crescimento do conservadorismo e da ameaça fascista no Brasil – marcada, sobretudo, pela eleição de Jair Bolsonaro para a presidência da República.


Nesse contexto, o filme de Marcos Pimentel toma a crucial decisão de estabelecer um “nós” e um “eles”, tomando lado nessa guerra santa, ainda que entrevistando praticantes da fé neopentecostal e das religiões afro-brasileiras. A decisão, que à primeira vista pode ferir os códigos éticos da feitura de um documentário – cuja narrativa, em tese, deveria prezar pelo princípio da igualdade perante os entrevistados – se torna compreensível diante do contexto apresentado. Ali, estão em jogo aspectos relacionados à violação dos direitos humanos, e não necessariamente à diversidade religiosa dentro de um país continental.


Entretanto, ao montar o filme explicitando distanciamento, muitas vezes por meio de sequências concomitantes, Pimentel acirra essa disputa, pintando heróis e vilões e, por vezes, deixando de lado o contexto macro da questão. Ora, como bem assinalado na cena citada inicialmente, o simulacro é o inimigo a ser combatido – o símbolo da Igreja Universal e aquilo que o neopentecostalismo apresenta enquanto poder e narrativa –, ao passo em que vítimas podem ser encontradas em ambos os lados dessa guerra. Claro, em graus e níveis totalmente diferentes. Mas, por mais que o filme faça alguns acenos para a relação estabelecida entre poder e religião, como na cena em que é feita uma comparação entre o espaço do terreiro, localizado nos fundos de uma casa, e a imponência da igreja evangélica, presente em templos, na indústria cultural e na política, falta ao documentário uma investigação mais aprofundada sobre a estrutura por trás da tradição neopentecostal, sobre os valores que eles pregam e sobre a riqueza que acumulam.


Esse capítulo da intolerância religiosa que hoje traduz um aspecto crítico do Brasil acaba remontado a 1988, época da redação da Constituição Cidadã, como explica Reginaldo Prandi[1], autor de livros como “Mitologia dos Orixás” (2001) e “Os Candomblés de São Paulo: a Velha Magia na Metrópole Nova” (1991). Ainda que a Constituição aprovada tenha garantido o direito à liberdade religiosa em solo brasileiro, a década de 1990 foi marcada pelo crescimento do neopentecostalismo na vida partidária do país. Ao longo do curso desses anos, uma mudança teológica no interior dessas religiões também representou uma mudança na forma como elas identificam a figura do mal. E a figura já desgastada do velho diabo acabou se transmutando na imagem de Exu e de outras divindades afro-brasileiras cultuadas nos terreiros de macumba. Por isso é tão difícil enfrentar esse preconceito. Pois os exércitos de Cristo, formados cotidianamente no seio dessas igrejas – como o próprio filme mostra –, não aceitam diálogo com o mal. Condenam a prostituição, condenam as drogas, e supostamente condenam a violência, enquanto internamente constroem sua própria máquina de ódio, que terá, como objetivo final, a extirpação de todo o mal do mundo. Como o mal é, na visão deles, reverenciado nas casas de santo, é ali que ele precisa ser eliminado.


Embora a profundidade dessa macroestrutura não esteja explicitamente posta no filme, “Fé e Fúria” propõe saídas interessantes. A entrevista com um tatuador adepto da prática de suspensão corporal figura como uma delas. Primeiro pela particularidade do personagem, homem que frequenta a igreja evangélica sem necessariamente obedecer seus preceitos e normas de forma cega, segundo pelo modo como ele complexifica os ritos de sua fé. Em determinada cena, o tatuador finca ganchos na pele de suas costas e realiza uma suspensão em espaço público, enquanto é observado por demais transeuntes. Balançando pendurado numa árvore, com os braços abertos e a luz do sol escapando pelas frestas entre as folhas, ele instintivamente reproduz a clássica imagem do Cristo crucificado. Nesse momento, em específico, o filme reconstrói uma representação de Jesus pela dor, sim, mas a potencializa por meio do prazer. A narrativa evidencia, recorrendo ao contraditório, a existência de uma fé pessoal que se livra das amarras da estrutura, quiçá propondo um caminho possível diante da batalha e da violência.


Caminho esse cuja solução, difícil, provavelmente não será encontrada tão cedo.

 

[1] O professor da USP explicita esse argumento na série de diálogos Perguntas sobre o Brasil, organizada por meio de uma parceria entre o Centro de Formação e Pesquisa do Sesc São Paulo, a Folha de S. Paulo e a Associação Portugal Brasil 200 anos. A mesa, intitulada “Como as religiões de matriz africana têm conseguido superar a intolerância?”, está disponível no YouTube.


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