A propósito de Perdida

por Victor de Almeida

 

A pedido do curador da mostra Cinema Mineiro em Cartaz, Victor de Almeida, foi incluído um texto crítico do filme Perdida, dirigido por Carlos Alberto Prates Correia (1975). Infelizmente não foi possível exibir essa obra nessa empreitada intitulada Cinema Mineira em Cartaz. No entanto, Victor aponta caminhos para uma nova perspectiva, direcionando um olhar para raridades que ainda precisam ser retomadas em nossas telas.

 

Trinta anos antes do close na face de Hermila sob a luz da janela de um ônibus, plano rima que aparece no início e no fim de O Céu de Suely (Karim Aïnouz, 2006), o clássico mineiro Perdida (Carlos Alberto Prates Correia, 1975) trazia uma protagonista que surgia em cena e se despedia de forma muito semelhante.


A coincidência, talvez involuntária, não é o único aspecto que aproxima estas personagens cujas identidades flutuam, estão à deriva, como o lugar delas no mundo.


Poderíamos também traçar paralelos com a crônica do apagamento dos indivíduos registrada em Arábia (Affonso Uchoa e João Dumans, 2017), para enfatizar a filiação mineira.


Mas a evocação do melodrama de Hermila/Suely permite singularizar um pouco mais a precedência da situação de Estela/Janete, interpretada por Maria Silvia em Perdida. Enquanto o belo filme de Aïnouz pode ser visto sem dificuldades na Netflix, o longa do montes-clarense Carlos Alberto Prates Correia praticamente sumiu.


Não foi possível obter uma cópia para incluí-lo na Mostra Minas em Cartaz, cuja seleção destaca-se, notadamente, pela resistência ao apagamento. Este texto pretende, portanto, fazer um esforço de memória.


Rever Perdida produz diversos sobressaltos, mesmo numa cópia maltratada, feita a partir de um antigo VHS, disponível no YouTube. O aspecto que primeiro chama a atenção é a forma narrativa moderna, liberada de regras, adotada por Prates Correia em contraste com o périplo da personagem, sucessivamente marcado por sujeições.


As elipses brutas, as intromissões da música e da poesia, as rupturas cômicas ao longo de uma narrativa que sugere somente dramaticidade são “detalhes” que mantêm o filme mais vivo do que a parcela mais difundida e consumida da atual produção audiovisual.


A progressão do relato, em vez obedecer a critérios uniformizantes de linearidade, prefere o caminho torto da acumulação, da superposição, o que fortalece o sem sentido do destino de Estela/Janete.


A inventividade formal, porém, não culmina em um exercício de abstração. O cinema de Prates Correia, como se confirmou mais tarde com Cabaret Mineiro (1979), Noites do Sertão (1983) e Minas Texas (1989), é um cinema físico, no qual os personagens são corpos, matérias que desejam, em vez de feixes de ideias.


Por isso, Perdida é a crônica de um corpo. O filme segue vivo e atual também por retratar as fragilidades da condição feminina a partir de um corpo que o tempo todo é tratado como objeto, trocado como mercadoria, abusado, explorado e maltratado.


A primeira e mais explícita denotação da palavra título é moral. Na realidade da época e mais ainda no contexto interiorano da história, a prostituição equivale ao último degrau da queda, a negação absoluta da pureza, valor central do que, naqueles tempos, era chamado de “tradicional família mineira”.


Um segundo significado, mais simbólico, da palavra “perdida” sintetiza a trajetória de Estela/Janete, personagem que perde, de ponta a ponta, o pouco que tem e que é. Sem direitos, nenhuma dignidade, ela é despossuída do próprio nome e da liberdade de fazer escolhas.


O exemplo mais enfático de sua condenação ao nada é apresentado logo na primeira cena, de função paradigmático. No lugar de empregada doméstica, destino comum das mulheres pobres, a personagem, embora não seja preta, é tratada como escrava. O filho da patroa tenta estuprá-la, o patrão a assedia, a dona da casa a acusa de queimar o feijão, a família reúne-se para lhe impor um castigo sádico e a despacha com uma mão na frente e outra atrás.


Como uma versão bem Terceiro Mundo da Justine de Os Infortúnios da Virtude, cada fase de sua perambulação implica uma nova etapa de abusos. O caminhoneiro no qual ela identifica proteção e afeto a emprega num prostíbulo, apaga seu nome, Estela, e a transforma em Janete. O amante, Zeca, não se distingue dos clientes para os quais ela nada mais é que carne. Somente na companhia das colegas de prostituição ela se reconhece como igual.


Quando visita os pais, suas roupas e modos são olhados com suspeita, e ela só reconquista a atenção da mãe depois que a compra com um trocado. Na etapa final de sua progressão, ela surge como operária, trabalhando no pior setor de uma indústria de carnes e sendo debochada por uma colega descompensada.


A prostituição assume em Perdida a função de metonímia do trabalho, assim como havia sido em Viver a Vida (Jean-Luc Godard, 1962). Enquanto a Nana, interpretada por Anna Karina, passava de vendedora de loja a prostituta, numa radicalização do conceito de trabalho, a personagem interpretada por Maria Silvia no filme de Prates Correia transita entre diferentes formas de trabalho em que todas representam modos de exploração e desumanização.


Para fortalecer esta ideia, é fundamental a contribuição de Maria Silvia à personagem. A atriz, premiada pelo trabalho, projeta com seus olhos expressivamente esvaziados a ideia de subjetividade negada, anulada. Sua Janete/Estela é quase sempre um autômato, um corpo-máquina possuído sem prazer na cama e reduzido a gestos mecânicos na fábrica.


Ao mesmo tempo, a beleza estranha de Maria Silvia revela-se nas cenas de solidão, nos momentos de abandono em que ela, finalmente, descobre poder ser dona de si.


Ali, entre ela e nós, o cinema de Prates Correia brilha intacto, entregue à paixão.


Cássio Starling Carlos é cria do CEC, do qual se tornou membro em 1980. Começou a escrever críticas no Estado de Minas, numa página editada pelo crítico e presidente do CEC Ricardo Gomes Leite. Graduado em Filosofia pela UFMG e mestre em Multimeios pela Unicamp, Cássio foi crítico de cinema da Folha de S. Paulo, organizador e editor das coleções Cine Europeu, Charles Chaplin e Grandes Diretores do Cinema, entre outras, lançadas pelo jornal paulistano. Atualmente, escreve na revista Carta Capital e é professor do curso livre “Crítica de Cinema e de Séries” da Fundação Cásper Libero.