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Um mundo em desencanto

[por Fábio Feldman]


Em Desencanto (Brief Encounter, 1945), obra-prima de David Lean, Laura, uma mulher de meia-idade, presa a um casamento tedioso, conhece Alec, um médico em situação semelhante à sua. Ambos simpatizam um com o outro e passam a se ver com certa frequência, consequentemente se apaixonando. Quando seus passeios públicos começam a chamar a atenção de figuras indesejadas, eles marcam um encontro no apartamento de um colega de Alec, que acaba os pegando no flagra e gerando enorme constrangimento. Embora a relação do casal nunca seja consumada, toda a situação injeta paixão e desespero em suas vidas – ou, pelo menos, na de Laura, a verdadeira protagonista da estória. Num desfecho que só pode ser descrito como trágico, a pobre mulher abdica do que poderia ter sido seu grande amor em prol da manutenção de uma vida monótona e previsível.


Na época do lançamento do filme, o jovem roteirista e diretor austríaco Billy Wilder o assistiu. Dotado de um enorme senso de ironia e uma imaginação cáustica, ele se mostrou menos interessado pelo drama da dona de casa infeliz e mais pela existência de um personagem secundário: o dono do apartamento no qual o encontro ocorreu. E se fizesse um filme no qual o protagonista fosse um pobre diabo forçado a dividir o próprio apartamento com um colega (ou um grupo de superiores...), que ambicionasse transformá-lo em seu motel particular?


Obviamente, Wilder não teve condições de tocar esse projeto adiante, dada a natureza polêmica de seu tema. Durante a década de 40, quando o Código Hays reinava soberano, qualquer tentativa de se dirigir uma comédia sexual, na qual homens de poder fossem representados como promíscuos, infiéis e moralmente desprezíveis, haveria de ser vetada imediatamente. Até mesmo para um discípulo de Ernst Lubitsch, como Wilder, acostumado a lidar com enredos bastante provocadores de modo sutil e indireto, essa trama se apresentava como infilmável. O que não quer dizer que tenha sido descartada pelo enfant terrible, que a alimentou e a ela retornou constantemente ao longo de mais de uma década.


Em 1960, o cenário havia mudado drasticamente. O Código Hays caducava, o cinema americano enfrentava grandes transformações, e toda a sociedade americana começava a se abrir para uma série de mudanças culturais e comportamentais que a afetariam de modo profundo. É justamente nesse importante ponto de transição que Wilder lança Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment, 1960), filme que, ao lado de Crepúsculo dos Deuses (Sunset Blvd), lançado dez anos antes, é considerado por muitos como sua obra-prima.


Juntamente com seu parceiro I. A. L. Diamond, com quem trabalhou em 9 filmes ao longo de mais de 20 anos, Billy retomou a ideia original nascida do contato com Desencanto e a expandiu. A estória que compuseram foca a existência de C.C. Baxter, empregado de uma grande companhia de seguros. Excessivamente cordial e incapaz de dizer não, ele é levado a dividir a chave de seu apartamento com quatro executivos, que o utilizam às noites, ao longo das semanas, a fim de lá levarem suas amantes. Baxter aceita se submeter a tal condição em função de sua natureza submissa e das promessas furadas feitas pelos superiores. Os vizinhos do pobre funcionário, atormentados com toda a música e todos os gemidos, pensam que Baxter é um verdadeiro bon vivant, um playboy, quando, em realidade, trata-se de uma pessoa profundamente solitária.


A partir dessa base, o roteiro se desenvolve. Baxter se apaixona por Fran, uma das ascensoristas do prédio onde trabalha; passa a dividir a chave com o senhor Sheldrake, espécie de CEO da empresa; e, para sua grande tristeza, descobre que o chefe usa seu apartamento, justamente, para lá levar Fran, sua amante. A relação predatorial que estabelece com a sensível garota a leva a tentar o suicídio, fato que forçará Baxter a reavaliar sua vida e se tornar “um ser humano”.


Nessa mescla de farsa e drama existencial, Wilder contempla seu tipo favorito: o homem comum. Diferentemente dos mitos de John Ford ou dos imperfeitos titãs de Orson Welles, os protagonistas de Wilder, em obras tão díspares quanto Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944) Farrapo Humano (The Lost Weekend, 1945), Crepúsculo dos Deuses e Avanti! (1972), são indivíduos medianos, vivendo vidas banais, que acabam, por força do destino, sendo tragados para o interior de situações inusitadas. Até mesmo em Águia Solitária (The Spirit of St. Louis, 1957), sua versão da vida de Charles Lindbergh, primeiro homem a voar dos EUA até a Europa sem fazer escalas, o diretor nos apresenta um sujeito de temperamento ordeiro, gentil, pacato – um típico americano padrão, despido de quaisquer ares míticos.


Em Se Meu Apartamento Falasse, Wilder constrói seu mais perfeito homem comum, um personagem que lembra os protagonistas de Gogol, com toda sua subserviência, bondade e falta de ambição. Sua dedicação ao trabalho é plena, mas sua inteligência não parece ultrapassar a mediania. Sua bússola moral é questionável, seus gostos são inexpressivos e sua conduta reflete um tanto de covardia. Entretanto, ao longo de duas horas, presenciamos a gradual expansão da consciência do personagem, o desabrochar de sua coragem e o nascimento de sua fibra moral – fatores que configuram um dos arcos mais belos já desenvolvidos em toda a história do cinema clássico americano.


O universo no qual o protagonista está inserido também é perscrutado por Wilder. Eterno crítico do American way of life, o autor dirigiu vários filmes nos quais desconstruiu seus pilares, iluminando o lado mais obscuro de Hollywood, o pesadelo da ambição desregrada, os veios subterrâneos que perpassam e envenenam a instituição da família tradicional, a inconsistência do sistema legal, os desvarios autoritários da esquerda e toda a brutalidade reacionária da direita. Um artista essencialmente político, Wilder dirigiu filmes de diversos gêneros, introduzindo neles uma mesma dose de frescor, irreverência e consciência crítica.


Em Se Meu Apartamento Falasse, seu alvo é o ambiente corporativo americano, com sua arquitetura desumanizante (o interior do escritório parece remeter tanto aos espaços gélidos de A Turba (The Crowd), clássico de King Vidor, quanto os d’”O Processo” de Kafka) e seus líderes grosseiros, que usam suas posições de poder a fim de explorar subalternos e assediar empregadas. Tristemente, o filme parece possuir uma espécie de natureza profética, uma vez que, até hoje, permanece sendo bastante atual.


Os espaços sufocantes representados são também irradiadores de um dos mais comuns estados de espírito contemporâneos: a solidão. É possível defender que Se Meu Apartamento Falasse é, acima de tudo, um filme sobre a solidão do homem moderno, o indivíduo que, sempre cercado por multidões, se sente desolado e perdido. Tanto Baxter, com sua vida vazia e monástica, quanto Fran, manipulada e usada por um homem que idolatra, sofrem da mesma malaise, do mesmo sentimento de não-pertencimento. Em uma obra mais romântica e idealizada, o amor poderia surgir entre eles como uma força redentora, que os ajudaria a preencher as lacunas que mantêm no peito. Mas Se Meu Apartamento Falasse é maduro e realista demais para sucumbir aos clichês amorosos de romcoms tradicionais. Seu desfecho é ambíguo, sua mensagem central se aproximando mais do Dostoiévski de “Humilhados e Ofendidos”: em um mundo dominado por tiranos brutais, a única consolação do pobre é o ombro do companheiro a seu lado. Amor como gesto de delicadeza e reconhecimento da absurdidade da vida.


Finalmente, gostaria de mencionar uma impressão. Billy Wilder sempre se considerou um diretor clássico, que valoriza enredo acima de qualquer coisa. Uma boa estória, segundo ele, sempre será mais importante do que qualquer pirotecnia visual ou experimento formal. E não há dúvidas de que Se Meu Apartamento Falasse se enquadra na estruturação tradicional da narrativa em três atos, com um protagonista que deve encarar um desafio, superá-lo e, decorrentemente, tornar-se uma pessoa melhor. Contudo, parece-me clara, nesse filme, uma certa influência moderna, tanto em função da absoluta ênfase nos personagens e suas realidades psicológicas, quanto por conta de seu duro realismo, sua recusa em aquiescer diante dos sofrimentos da vida cotidiana. Uma cena como aquela em que Baxter e o médico cuidam de uma Fran que acabara de tentar o suicídio, devido ao uso de planos longos, incômodos, e à decisão de Wilder de nunca desviar o olhar, me leva a pensar em Rossellini. Há ali uma poesia dura, que remete ao vazio e à dor da existência humana. Em seu clássico mais festejado, Wilder confecciona seu roteiro mais funcional ao mesmo tempo em que pisca para a Europa, o centro irradiador de todas as mudanças significativas que prometiam balançar a história do cinema e alterá-la para sempre.



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