A Face Oculta, de Marlon Brando: um western entre o clássico e o moderno

por Wallace Andrioli


O cinema de gênero, por trabalhar com uma lógica de inovação na repetição, tem essa capacidade de muitas vezes remeter o espectador a imagens de outros filmes. No western, por suas características próprias (localização cronológica específica, personagens bastante típicos), essa capacidade parece ser ainda maior. A Face Oculta (1961), único filme dirigido por Marlon Brando, compartilha algumas características centrais com um western realizado mais de 30 anos depois: Os Imperdoáveis (1992), de Clint Eastwood, espécie de epitáfio oficial do gênero.


Isso se dá por alguns motivos, mas o principal deles está em algo que Martin Scorsese observa sobre A Face Oculta: sua localização entre o clássico e o moderno. Esse é um típico western psicológico dos anos 1950, que trabalha seus personagens e conflitos numa lógica da ambiguidade, se afastando de maniqueísmos ainda que mantendo, na caracterização dos protagonistas, algum grau de romantismo – algo que, aliás, já não existe em Os Imperdoáveis, filme totalmente tomado pela melancolia e por uma visão sombria da sociedade norte-americana.


Apesar dessa diferença, as muitas semelhanças entre as obras saltam mais aos olhos: tanto A Face Oculta quanto Os Imperdoáveis possuem protagonistas e antagonistas ambíguos, faces de uma mesma moeda, e o embate dos dois não parece destinado a gerar resultados óbvios; ambos os xerifes, respectivamente interpretados por Karl Malden e Gene Hackman, ocupam essa posição de antagonismo e são personagens complexos, portadores de uma visão de lei e ordem da qual os filmes não discordam totalmente, e também engajados em projetos pessoais que os humanizam (a construção de uma casa em Os Imperdoáveis, a preservação da vida familiar conquistada em A Face Oculta); por fim, as duas narrativas contam com momentos intermediários de humilhação pública dos protagonistas (no caso da obra de Eastwood, há também uma sequência desse tipo envolvendo outro personagem, o pistoleiro English Bob, interpretado por Richard Harris) pelos xerifes, seguidos por um estágio de recuperação física e psicológica e, então, pela vingança.


A comparação entre planos e motes dos dois filmes ajuda a vislumbrar o funcionamento de um gênero cinematográfico como o western, em que temas, situações e tipos são repetidos/reconfigurados filme a filme, muitas vezes também estabelecendo diálogos diretos com seus contextos de produção. Conforme defendem os teóricos de cinema David Bordwell e Kristin Thompson: “O público espera que o filme de gênero ofereça algo familiar, mas ele também demanda novas variantes sobre o gênero. O cineasta pode desenvolver algo ligeiramente ou radicalmente diferente, mas ainda será algo baseado na tradição. A interação da convenção e da inovação, do familiar e da novidade é central para o filme de gênero.”


É interessante também pensar esse lugar de passagem para a modernidade cinematográfica em que se encontra A Face Oculta por meio da figura de seu diretor e protagonista. Marlon Brando foi importante nessa transição por sua conhecida filiação ao método Stanislavski de interpretação e ao Actors Studios, sendo uma referência central para a geração de atores da chamada Nova Hollywood (Al Pacino, Robert De Niro, Gene Hackman, Dustin Hoffman, John Cazale etc.). Seus principais filmes dos anos 1950 (Uma Rua Chamada Pecado, Viva Zapata!, Sindicato de Ladrões, todos dirigidos por Elia Kazan) foram, também, referências para os diretores norte-americanos das duas décadas seguintes e exemplares de uma etapa de trânsito do classicismo ao modernismo no cinema daquele país.


Brando não foi um ator associado ao gênero western. Após A Face Oculta, protagonizou mais dois exemplares do gênero, nenhum deles propriamente marcante: Sangue em Sonora (1966), de Sidney J. Furie, e Duelo de Gigantes (1976), de Arthur Penn. A Face Oculta marcou, portanto, uma experimentação na carreira de Brando, profissional sempre inquieto e inconformado. Nesse sentido, há um certo estranhamento que surge da presença do astro em cena. Por mais que a imagem de rebelde fortemente associada a ele desde seus primeiros filmes não seja propriamente exógena ao western e seus protagonistas, Brando imprime no ladrão de bancos Rio uma camada a mais de complexidade, um certo ensimesmamento, uma sensibilidade/melancolia não tão comuns no gênero. Isso se manifesta principalmente nos muitos momentos de contemplação do personagem.


A proximidade entre A Face Oculta e o cinema moderno norte-americano, ou a chamada Nova Hollywood, também se fez presente na produção do filme. Brando, ator que passou à história como alguém de difícil convivência nos sets de filmagem, foi um diretor de personalidade forte e apego a uma visão ambiciosa de seu filme. Scorsese cita, na apresentação da cópia restaurada de A Face Oculta, histórias de bastidores como a da espera perfeccionista do diretor pelas ondas perfeitas que pretendia registrar. Muito se falou ainda sobre a mítica versão de 5 horas de duração, que, nesse sentido, não deixa de remeter ao emblemático O Portal do Paraíso (1980), western de Michael Cimino, conforme observa o crítico americano Peter Sobczynski. Os diferentes destinos dos dois filmes, no entanto, demonstram bem as mudanças nas relações entre diretores e estúdios entre o final dos anos 1950 e o início dos anos 1980: enquanto Brando simplesmente perdeu o controle sobre A Face Oculta, vendo estrear um corte que não era o que pretendia, Cimino bateu o pé, manteve liberdade criativa apesar de ter negociado com seus financiadores e quase levou à falência o estúdio United Artists.


Aqui, aliás, vale abrir um breve parêntese: é sabido que A Face Oculta por pouco não foi dirigido por Stanley Kubrick. Outro diretor perfeccionista, outro diretor localizado nessa transição do clássico ao moderno em Hollywood, outro diretor, enfim, que daria enormes dores de cabeça ao estúdio. Sobre essas alterações na equipe do filme, elas ocorreram da seguinte forma: o roteiro, adaptado do livro “The Authentic Death of Hendry James”, de Charles Neider, foi escrito por Rod Serling (de The Twilight Zone); posteriormente, reescrito por Sam Peckinpah; o filme seria produzido e estrelado por Brando e dirigido por Kubrick; ao ser contratado, Brando trouxe os roteiristas Calder Willingham e Guy Trosper para reescrever novamente o roteiro; a duas semanas do início das filmagens, Brando demitiu Kubrick e assumiu a direção.


Por outro lado, A Face Oculta mantém pontos de contato com o western clássico. Autores como Fernando Vugman, David Bordwell e Kristin Thompson apontam como características centrais do gênero a dicotomia entre civilização e natureza, frequentemente encarnadas na oposição entre instituições como a lei e a Igreja e o Oeste selvagem, dominado por povos indígenas apresentados como violentos e indomáveis. No entanto, esse embate também pode ser travado pelas instituições modernas contra aqueles que, parte do mundo “civilizado”, se rebelam contra suas normas (é o caso, por exemplo, dos bandidos, ladrões de bancos, membros de bandos que atravessam o território do Oeste americano). Nesse sentido, em A Face Oculta ocorre esse embate entre o xerife Dad Longworth, mantenedor da lei e da ordem na cidade de Monterey, na California, e Rio e seus comparsas. Aqui, no entanto, existe simultaneamente um movimento de internalização desse conflito entre lei e crime na própria figura de Dad, um ex-criminoso que se tornou xerife e precisa lutar para preservar esse seu novo status contra um passado que teima em retornar.


Tais autores também colocam o México como um espaço que representa, muitas vezes, no western anarquia e selvageria, em oposição aos EUA. A narrativa de A Face Oculta começa no México, onde, ao contrário desse estereótipo típico do gênero, há lei (é onde Rio é punido). No entanto, na estrutura do enredo, o México é o lugar onde Rio e Dad cometem seus crimes, enquanto na California o segundo se torna agente da ordem e o primeiro, apesar de permanecer numa zona de ambiguidade, encontra alguma dignidade e propósito, por meio do amor de Louisa (Pina Pellicer).


Outra característica típica do western, listada por Bordwell e Thompson, e presente em A Face Oculta é a história de vingança. O enredo do filme até poderia, a princípio, ser sintetizado nesse plot: “um criminoso é traído por seu parceiro e, após escapar da prisão, parte em busca de vingança”. No entanto, é interessante como Brando e seus roteiristas deixam a narrativa bem mais aberta ao inesperado do que essa moldura do gênero transparece inicialmente. É exemplar nesse sentido a cena do reencontro entre Rio e Dad, construída como um grande confronto que acaba não ocorrendo. Deriva daí a permanência de uma dúvida, por boa parte do enredo, sobre a possibilidade de reconciliação dos dois personagens, sobretudo através da mediação das duas personagens femininas.


A Face Oculta é, enfim, um drama maduro sobre escolhas que são feitas, mentiras que são contadas e as consequências delas. Consequências essas que vão da banalidade cotidiana ao extremo da morte. Sobre as mentiras e seu papel na história do filme, há vários exemplos, das artimanhas de sedução de Rio à conversa entre os ex-parceiros quando se reencontram, além de todo o imbróglio da relação entre o protagonista e Louisa. Já sobre o peso das escolhas, chamam atenção dois momentos protagonizados por Dad, talvez o personagem mais interessante do filme: quando ele decide trair Rio e Brando enquadra Malden num longo e expressivo close; e quando o xerife cavalga orgulhosamente, sem saber, para a morte. Instantes breves e discretos, mas de grande intensidade dramática, produzidos por um diretor iniciante que se mostrava bastante talentoso nessa função – que, infelizmente, não voltou a exercer.

 

Referências bibliográficas:

BORDWELL, David & THOMPSON, Kristin. A arte do cinema: uma introdução. Tradução: Roberta Gregoli. Campinas, SP: Editora da Unicamp; São Paulo, SP: Editora da USP, 2013.

VUGMAN, Fernando Simão. Western. In: MASCARELLO, Fernando (org.). História do cinema mundial. Campinas, SP: Papirus, 2006.

SCORSESE, Martin. “Martin Scorsese on One-eyed Jacks”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=fOspWo-Vtjw.

SOBCZYNSKI, Peter. “You ain’t getting no older than tomorrow”: a look at “One-eyed Jacks”. Disponível em: https://thespool.net/anniversaries/one-eyed-jacks-review/.

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