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“MEU DEUS, NADA MUDOU NESTE PAÍS”
Conversas possíveis a partir de Abolição (1988), de Zózimo Bulbul

por Gabriel Araújo

Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888. Declara extinta a escravidão no Brasil.

 

A princesa Imperial, Regente em Nome de Sua Majestade o Imperador o Senhor D. Pedro II, faz saber a todos os súditos do Império que a Assembléia Geral decretou e Ela sancionou a Lei seguinte:


 

Art. 1º É declarada extinta desde a data desta Lei a escravidão no Brasil.

Art. 2º Revogam-se as disposições em contrário.


 

Numa das poucas cenas ficcionais de Abolição, documentário de Zózimo Bulbul lançado em 1988, é reencenado, cem anos depois, o momento de assinatura da Lei Áurea. Logo no início do filme, após um significativo destaque à equipe negra que atua por trás das câmeras, a imagem dá espaço à princesa Isabel, no filme interpretada por Camila Amado, segurando o papel onde fora grafada a lei. Sua expressão é contemplativa, satisfeita e encontra eco junto ao semblante das outras autoridades que compõem a cena, enquadradas numa pose que remete aos quadros de estilo neoclássico do período. 

 

Ela então caminha com calma, resoluta, um pouco emocionada, até a sacada, com o papel assinado em mãos. De lá, grita as palavras ali escritas para um público ausente no quadro. É aí que a montagem de Bulbul resume o que está sendo proposto, tanto na cena em questão, como no filme como um todo. Apresenta-se o descompasso, aqui ilustrado por diversos elementos: o descompasso entre a música de ópera que antes decorava a cena, e a bateria de carnaval que entra logo a seguir; entre a princesa Isabel, sozinha no parapeito de uma sacada, e as cenas de desfile com várias pessoas, em sua grande maioria negras, fantasiadas e celebrando em festa; entre a alegria dos rostos dessas pessoas e a liberdade de seus corpos, pelo menos ali, carnavalescos, e a pose esquizofrênica da princesa, que ergue os braços e congela uma expressão de triunfo. 

 

Só então, após percorrer as imagens de arquivo e pinturas que representam o 12 de maio de 1888, o período da escravização no Brasil, e a encenação da assinatura da Lei Áurea, no dia 13, o título do filme aparece em tela. Pois Abolição está, afinal, preocupado com o 14, com o dia depois, como que questionando, à princesa triunfante e aos colonizadores que a sucedem: dois artigos são capazes de reverter três séculos de desumanização?

 

Lançado em ocasião do centenário da abolição da escravatura no Brasil - porém gestado, pelo menos, desde 1977, como conta a dissertação de Marcell Carrasco David¹ - o filme de Zózimo Bulbul transformou-se, nesses trinta anos, numa importante peça histórica. Os temas abordados são tantos em suas duas horas e meia de duração que o filme consegue traçar não só uma reflexão sobre o lugar da pessoa negra nesses “cem anos de liberdade”, como recompõe uma história de país a partir da perspectiva de negros e negras.

 

Talvez por isso o filme seja tão verborrágico: seu projeto é grandioso, no sentido quantitativo da palavra. Após uma história de silenciamento, Zózimo parece querer jogar muitas das questões raciais prementes na década de 1980 (e hoje) para denunciar, com a imagem, com a palavra, com a montagem, a própria farsa da abolição e seu descompasso inerente. Faz isso por meio da entrevista, por onde são compartilhados tanto os pensamentos de teóricos cruciais para a história do nosso conhecimento quanto as experiências de vida e trajetória de precursores da nossa cultura e sociabilidade; e por meio de uma montagem que, ao se descolar, ainda que parcialmente, das narrativas criadas pelas falas, consegue dar contexto, amplitude e diversidade às vivências da população negra brasileira.

 

Se existe uma possível crítica a ser feita ao excesso de temas, conversas e artifícios narrativos, que ela seja colocada ao lado de uma consideração à riqueza proporcionada por esse conjunto. Oxe, Abolição é filme que justapõe entrevistas como a de Seu Manoel, homem negro que, ao completar 120 anos, compartilha, com lucidez, memórias do tempo em que fora escravizado, com falas de Lélia Gonzalez, Nei Lopes, Joel Rufino e Beatriz Nascimento, entre tantos outros e outras, sem hierarquizar nomes, conhecimentos e percursos de vida. É narrativa que compartilha os causos de fundação do Teatro Experimental do Negro, contados pela voz do próprio Abdias do Nascimento, para recuperar, noutros momentos, a tradição do Teatro de Mamulengos de Olinda. É longa que pergunta ao trabalhador rural sobre a procedência das terras onde produz e também conversa com Muniz Sodré sobre o papel da reforma agrária para a efetiva libertação de um povo. Não numa divisão simplória entre personagem e especialista, tão presente numa forma jornalística de enquadrar o mundo, mas numa escuta atenta de quem tem muito a contribuir. A partir desse remix, Abolição se posiciona enquanto voz nítida e ressalta dois importantes aspectos: o de que o Brasil é preto, por mais que inúmeras e reiteradas políticas de branqueamento queiram dizer o contrário, e o de que há diversidade nessa negrura. 

 

Pois, ainda que o discurso esteja bem encaminhado, na maioria das vezes, para uma mesma construção argumentativa, há uma interessante aposta do filme em aspectos contraditórios fundamentais. Não apenas nas situações mais óbvias, como, por exemplo, nas entrevistas com João de Orleans e Bragança, neto da princesa Isabel, e Gilberto Freyre. Nessas, inclusive, Zózimo acaba dando um jeitinho de demarcar seu ponto de vista. Isso pode ser visto no enquadramento, que contrasta a pompa do espaço com a fragilidade das pessoas ali entrevistadas, já velhas e, no caso de Freyre, debilitadas; e no próprio olhar de quem filma, visto que, nos dois momentos, o diretor opta por também enfocar a equipe (negra) que conduz a conversa. Ideia que também se reflete nas inserções das fotografias e símbolos que, à primeira vista, reforçam as falas dos entrevistados, e indiretamente quebram as assimilações por eles propostas tão facilmente. Nada é tão preto no branco quanto parecem pintar. 

 

Entretanto, para além dessas cenas, o filme também opta por jogar luz em situações de rupturas e quebra de expectativas dentro da própria comunidade negra. Vide a visita ao terreiro de Mãe Filhinha, fundadora do Ilê Axé Itayle, em Cachoeira, e a mesa formada pelos representantes da velha guarda de escolas de samba do Rio de Janeiro. Ela, que não vê força de resistência no candomblé da época, pela falta de profundidade de alguns de seus praticantes, e eles, insatisfeitos com o rumo que o carnaval vinha tomando na cidade maravilhosa. Todos sabem que a vida está em constante mudança, mas essas duas cenas conseguem dizer mais do que apenas uma contradição puramente geracional. São cenas que impõem respeito, pelo modo como foram construídas e pelo destaque dado a elas na narrativa. Com os membros da velha guarda, por exemplo, Zózimo reserva tempo para que cada um apresente seu nome, seu crédito e compartilhe sua história com o samba e sua visão sobre o rumo do ritmo. E há beleza nessa forma de valorizar aquelas pessoas que deram os primeiros passos. Nem que seja para depois abrir um espaço onde caiba a discordância e a contradição. 

 

O maior desses descompassos, sem sombra de dúvidas, ocorre durante a conversa travada com Seu Manoel, homem negro nascido em 8 de janeiro de 1868, três anos antes da Lei do Ventre Livre. Manoel é registro histórico vivo da violência do processo de escravização e da brutalidade de uma ruptura sem nenhuma reparação ao povo escravizado. “Hoje tamo na amargura”, é o que ele responde quando questionado sobre sua situação atual, reforçando que, pelo menos durante o período em que era escravo, tinha comida na mesa e satisfação no trabalho. Como se registra uma fala com tantas camadas?

 

Ao filmar o personagem e a comunidade no seu entorno, Zózimo acaba recorrendo a uma atitude louvável de escuta e partilha. Preserva o paradoxo, compreende e demarca que a experiência de Seu Manoel exemplifica o ponto da farsa da abolição que o filme pretende desenvolver, mas não faz dele apenas exemplo. O personagem é filmado em inteireza. Seu testemunho não é só argumento, é história - história viva. E há uma atenção e uma reverência no desenrolar desse modo de se contar uma história que permite com que a contradição flua. Sem prejuízo da premissa, que, no final das contas, acaba sendo reforçada, e sem apagamento do personagem, que está ali, amargurado, mas ainda vivo para compartilhar suas próprias ideias.

 

Tudo que é apertado rasga, lembra o curta de Fabio Rodrigues Filho, de 2019. Na obra, Fabio articula, por meio da costura de imagens de arquivo e de filmes nacionais, momentos em que a agência de atores e atrizes negras saltam para além do roteiro, para além da direção, para além da narrativa. É um sorriso que escapa, um brilho no olho que encontra a câmera, um acaso que, por ser cinema, por ser registro, fincou-se na história. Algo semelhante acontece em Abolição. Os entrevistados falam, não apenas pela sua voz, e a imagem conta, não apenas pelo o que ela mostra, mas também por aquilo que ela só deduz. Do mesmo modo como as rugas e a curvatura de Seu Manoel refletem a idade de um homem centenário, seu olhar vago e fala firme denotam a lucidez de alguém que, sentado numa bancada de bar, rememora seu passado. A imagem também fala durante a entrevista com Zeelândia Cândido de Andrade, filha de João Cândido, o “Almirante Negro”, líder da Revolta da Chibata. Seja por meio da inquietação das crianças em cena, seja pelo ambiente que o enquadramento fixo revela: um lugar simples, humilde, que indica como vivem os descendentes de um dos grandes revolucionários do Brasil. Fato mais curioso talvez esteja na conversa com a historiadora Maria Beatriz Nascimento, também enquadrada dentro de um ambiente doméstico. Ela, sentada numa banqueta, lendo dados sobre a ocupação e a escolaridade das pessoas negras no país. Ao seu lado, uma TV ligada com o que parece ser o Xou da Xuxa, um dos grandes aliados da ideologia do branqueamento, sendo transmitido. Retratos de Brasil que escapam e que encontram eco na discussão proposta.

 

Rasgo que também pode ser observado não à toa próximo ao fim do longa, na imagem de uma das entrevistas com Benedita da Silva, então primeira vereadora negra da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Existe um corte brusco entre as cenas imediatamente anteriores, que evidenciam as manifestações pelas Diretas Já – cheias de gente, de faixas, de barulho e de uma certa animação – e o plano em que Benedita é enquadrada, sentada num restaurante, com um suco de laranja, pães e uma rosa à sua frente. “Meu Deus, nada mudou nesse país”, ela diz, mesmo sem precisar falar. Seu ar de tédio, seu olhar caído, sua cabeça apoiada na mão com o cotovelo sobre a mesa, já evidenciam toda a sua opinião e resumem muito do que o próprio filme já havia dito, como quando o longa enquadra, em vários momentos, pichações que denunciam as amarras que continuam algemando pessoas negras neste país.

 

A retórica das perguntas que ela faz (“Que país é este? Que povo somos nós?”) apenas reforça a importância da construção de futuros com base no real entendimento e no devido respeito à nossa identidade brasileira - formada por uma cultura que, antes de ser europeia, é preta e indígena, como reforça Abdias em sua entrevista. Há de sair algo de toda essa coletividade.

 

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¹ DAVID, Marcell Carrasco. Abolição: Escavações e memórias sobre o Cinema Negro de Zózimo Bulbul. Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio. Rio de Janeiro, julho de 2020.

*  *  *

Gabriel Araújo é jornalista, programador e crítico graduado pela UFMG. É cofundador e curador do Cineclube Mocambo, e integra o coletivo Zanza e o coletivo Lena Santos, de jornalistas negras e negros de Minas Gerais. Participou das equipes de curadoria de mostras e festivais como América Negra, Cinecipó, LONA, entre outros, e tem textos publicados na Revista Cinética (RJ), na agenda vaiterbh (MG), no Cinefestivais (SP) e no Sessão Aberta (SP).

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