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EXAGERADOS: CINEMA CONTRA O BAIXO-ASTRAL

por Bruno Hilário

É bom relembrar… No final dos anos 70 nascia o Cine Humberto Mauro

 

É muito significativo iniciar a mostra com a exibição do filme A Noiva da Cidade, de Alex Viany, realizado a partir de roteiro escrito por Humberto Mauro. Este clássico do cinema brasileiro foi exibido na histórica sessão de inauguração do Cine Humberto Mauro no dia 15 de Outubro de 1978. A Noiva da Cidade é uma das mais belas homenagens à cinematografia de Humberto Mauro, uma vez que Alex Viany - amigo próximo do cineasta - imprimiu à obra uma poética visual que recria o estilo autoral do grande pioneiro do cinema brasileiro. Esta sessão dialoga com as atividades em comemoração dos 50 anos do Palácio das Artes e é dedicada a todas as pessoas envolvidas na criação e na trajetória do Cine Humberto Mauro. 

De volta aos 80

A década de 1980 foi marcada pela expectativa de grandes modificações sociais no Brasil. A intensa produção cultural se tornou uma das protagonistas nos debates sobre os rumos de nossa nação. Novos caminhos precisavam ser traçados. O conceito da “cultura popular de massa”, com uma grande presença do rádio e da televisão no cotidiano da população, favoreceu o aparecimento de fenômenos pop na música, na literatura e nas narrativas audiovisuais. Esta produção buscava dialogar com um país recém industrializado, com uma população que crescia vertiginosamente e se amontoava nos espaços urbanos. A nuvem de neon consumista, que se instalou no universo simbólico e publicitário, se contrastava com profundos problemas sociais.

 

Apesar de toda dificuldade que o setor cinematográfico enfrentava, principalmente a agravante carência dos investimentos para a produção e difusão de filmes nacionais, fruto de sucessivas crises na EMBRAFILME, o cinema brasileiro encontrou novos caminhos e viveu uma efervescente diversidade narrativa e estética. 

A curadoria de Exagerados: Cinema Contra o Baixo-Astral não tem como objetivo dar conta de todos os aspectos da cinematografia brasileira nos anos 80. A programação estabelece uma relação de aproximação e distanciamento entre as obras, pensando a singularidade de cada proposta estética e diálogos possíveis entre os filmes a serem exibidos. 

Do real ao artifício: E vamos mais que a vida!

 

Cabe aqui elencar alguns pontos que atravessam as narrativas. É possível verificar a relação entre a produção cinematográfica e outros segmentos culturais e artísticos, em especial a televisão. Talvez como uma estratégia de atrair o grande público para o cinema, artistas do meio televisivo ganham um grande espaço nestas produções, bem como grupos e cantores do universo pop nacional estão inseridos nas tramas e trilhas sonoras de uma forma bastante peculiar.  

Em cada filme proposto há um jogo dialético através do qual o real é colocado em xeque por verdadeiros rasgos de artifício. De um modo geral pode ser observado uma apropriação muito particular da estética narrativa clássica hollywoodiana dos anos 30, 40 e 50, pastiches do cinema de gênero, ênfase no plano da fotografia e em um universo cenográfico farsesco, procedimentos de montagem acentuados e a teatralidade das interpretações.

Se por um lado esta produção parece se distanciar das formas narrativas do Cinema Novo, por exemplo, contradições sociais brasileiras dão tom para o aparecimento de novas matizes temáticas sobre a mulher, a migração, identidade racial, as condições do trabalho e da vida urbana, diversidade de gênero e sexual, a democracia e o direito civil nas dinâmicas políticas do cotidiano do país, a juventude e as perspectivas de futuro.

Novas perspectivas para a diversidade

Os anos 80 foi um período em que se verificou um aumento na presença da mulher na direção cinematográfica. Na programação da mostra Exagerados: Cinema Contra o Baixo-Astral, esta efervescência está representada pelo longa-metragem Amor Maldito (1984) de Adélia Sampaio. Esta obra é um verdadeiro marco para a cinematografia nacional por ser o primeiro longa-metragem a ser dirigido por uma cineasta negra. Além disso, Amor Maldito ainda é pioneiro na abordagem de um relacionamento lésbico contado a partir de uma perspectiva feminina. No texto Kbela e Cinzas: o cinema negro no feminino, do “Dogma Feijoada” aos dias de hoje, publicado no catálogo da 20 edição do FestCurtasBH, Janaina Oliveira nos lembra que "as histórias de realização e lançamento do filme são marcadas por fatos que apontam os problemas enfrentados no início dos anos 1980 pelo cinema brasileiro." Para debater e aprofundar todo o contexto de realização e difusão de Amor Maldito no conturbado contexto dos anos 80, será realizada a a masterclass online: Dirigindo Amor Maldito ou a mulher que enfrentou o sistema com a participação da diretora Adélia Sampaio, dia 23 de Setembro às 19h.

Nesta conjuntura, se destaca também A Hora da Estrela (1985), de Suzana Amaral, uma adaptação cinematográfica do livro homônimo escrito por Clarice Lispector. Nesta obra, o público acompanha os conflitos de uma mulher comum, retirante nordestina, de origem humilde, longe dos apelos hipersexualizados tão comuns na trajetória de representações femininas do cinema brasileiro. 

Minas Gerais em destaque

Os filmes Idolatrada (Paulo Augusto Gomes, 1982), Noites do Sertão (Carlos Alberto Prates Correia, 1984) e Um filme 100% Brazileiro (José Sette de Barros, 1985) figuram como grandes clássicos do cinema brasileiro produzidos em Minas Gerais nos anos 80. Cada qual com a sua singularidade, este pequeno conjunto de filmes contextualiza as diversas estratégias de realização em nosso Estado. Estas três obras foram produzidas pelo mineiro Tarcísio Vidigal, diretor do Grupo Novo de Cinema, cuja trajetória está intimamente ligada à continuidade e ao vigor da nossa produção cinematográfica neste período.

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