MOSTRA

CINEMA E ÓPERA

26 DE FEVEREIRO

a 14 DE MARÇO

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O ano de 2020 marca o começo da celebração dos 50 anos da Fundação Clóvis Salgado e os novos desafios e conquistas no universo digital.  A tradição dos encontros com a arte operística tomou diferente forma por meio da inédita Temporada de Ópera On-line. Planejada para o ambiente digital, a programação inaugurou um novo modo de fazer, difundir e refletir sobre a ópera no Brasil e na América Latina, com debates, aulas, palestras, mostra de cinema, exposição de artes gráficas e exibição de vídeo inédito dos Corpos Artísticos da FCS.

 

Com a impossibilidade de realizar a tradicional temporada de óperas de maneira presencial, a FCS estruturou as atividades digitais de forma a manter a valorização e o fomento ao setor. Um marco na história da Instituição, a Temporada de Ópera On-line reuniu especialistas, amantes da ópera e novos públicos para refletir sobre a importância desse gênero artístico na produção cultural brasileira.

 

A produção operística da FCS é grande formadora de público e agrega constantemente novos admiradores. Os títulos apresentados ao longo dos anos foram os mais diversos e, em cada temporada, são promovidos encontros do público com os artistas e profissionais de produção, além de palestras sobre a história da ópera.

 

A Fundação Clóvis Salgado nasceu com vocação para a produção artística, especialmente a ópera. Ao longo dos seus 50 anos, consagrou-se como uma das instituições culturais brasileiras que produz montagens operísticas com excelência. Foram 87 produções encenadas de 55 títulos, desde 1971, ano de inauguração do Palácio das Artes. Além dos corpos artísticos – Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Coral Lírico de Minas Gerais e Cia. de Dança Palácio das Artes – a FCS mantém o Centro Técnico de Produção e Formação Raul Belém Machado que faz a guarda, organização e gestão do acervo de suas montagens.

 

O encerramento da Temporada de Ópera On-line será com um concerto da soprano Eliane Coelho e do pianista Luiz Gustavo Carvalho, dia 22 de novembro, às 19h, com transmissão ao vivo do Grande Teatro Cemig Palácio das Artes, uma parceria entre a FCS e o Festival Artes Vertentes. 

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Ópera e Cinema: Diálogos

Por João Luiz Sampaio

A relação entre ópera e cinema é antiga – e segue viva. Da influência do gênero na criação de trilhas sonoras às questões estéticas colocadas recentemente pela transmissão de óperas para cinemas de todo o mundo, os pontos de contato se multiplicam, presentes também na longa lista de diretores que filmaram grandes óperas do repertório.

Como pensar hoje essa relação? A resposta nasce do próprio conceito da Temporada de Ópera on-line da Fundação Clóvis Salgado. Um de seus motes centrais, afinal, é o olhar interdisciplinar para a produção operística, um dos caminhos para que possamos entender sua atualidade e o modo como pode contribuir para questões de nosso tempo. E esse foi o ponto de partida para a escolha dos títulos de óperas, das montagens e dos filmes que compõem a mostra Ópera e Cinema: Diálogos. 

Ao dirigir Aida, uma das mais célebres obras de Giuseppe Verdi, a cineasta iraniana Shirin Neshat cria uma concepção na qual o ponto fundamental é a compreensão do espaço da mulher na sociedade. Na ópera de Verdi, ela enxerga a protagonista presa entre o fanatismo religioso e o poder político. É uma questão importante de nosso tempo, que ela também explorou em seu premiado filme Women without Men, cuja questão feminina é pensada no contexto da sociedade iraniana.

Da mesma forma, Alma, de Claudio Santoro, traz para o Brasil essa discussão ao adaptar o livro de Oswald de Andrade. E Liquid Voices coloca-se como síntese da produção da compositora Jocy de Oliveira, cuja olhar original para a ópera tem a questão feminina e a relação com o outro como temas centrais.

Diversas personagens femininas são centrais na mostra. Tosca, de Giacomo Puccini, é a adaptação da peça que Victorien Sardou escreveu para a grande atriz Sarah Bernhardt – cuja viagem ao Brasil é o ponto de partida para Amélia, de Ana Carolina. E Turandot, também de Puccini, coloca uma questão bastante atual: como levar ao palco hoje obras que, na passagem do século XIX para o século XX, apoiam-se em estereótipos na construção das personagens, em especial aquelas que fogem à realidade europeia?

A certeza de que a história de uma obra de arte e também a história do modo como ela é interpretada ao longo do tempo surge da mesma forma em Lo Schiavo, de Carlos Gomes. À luz do século XIX, o compositor participou de um processo de criação de uma identidade nacional por meio da arte – que ainda nos anos 1940 era influente, como mostram os dois breves filmes de Humberto Mauro sobre o compositor. Mas de que identidade estamos falando? Em que sentido ela hoje pode e deve ser repensada, à medida em que a questão indígena segue como um dos entraves da nossa sociedade?

Já em sua concepção para Lohengrin, de Richard Wagner, o diretor Yuval Sharon entende o retorno à Idade Média como um recurso para se discutir o presente – mais especificamente, as relações de poder que determinam a vida em sociedade. E como não considerar, nesse debate, a reflexão sobre o poder que Lucchino Visconti nos oferece em Ludwig, filme no qual a música de Wagner é personagem central? 

Esses são alguns exemplos do tipo de diálogo proposto pela mostra. Mas há outros. A montagem de Tosca, de Puccini, aqui apresentada foi dirigida pelo cineasta Michael Sturminger que, no cinema, ficou conhecido por Variações de Casanova, que tem em sua origem a figura de Don Juan, base também para o Don Giovanni, de Mozart, em produção assinada pelo diretor de teatro Ivo Van Hove. 

E se o objetivo é propor diálogos, então a presença de William Shakespeare é fundamental, com Romeu e Julieta e Macbeth como dois entre os muitos exemplos de adaptações de peças do dramaturgo. Exemplos fascinantes, pois fazem da música narradora, capaz de amplificar emoções e sensações dos textos originais.

No imaginário do público, a ópera talvez soe como uma das mais restritas formas de manifestação artística, enquanto o cinema coloca-se entre elas como a mais acessível. Ao propor o diálogo entre esses dois universos, o objetivo foi tentar quebrar essa visão e mostrar que, tanto nos temas abordados quanto na forma, ambos contribuem para um debate sempre necessário a respeito de nosso passado, de nosso presente e do futuro que pretendemos construir. 

Bom espetáculo. E boa sessão.  

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PROGRAMAÇÃO COMPLETA

 

 

HISTÓRIA PERMANENTE DO CINEMA ESPECIAL